As Moedas da Travessia.
Naquela manhã friorenta, um dos auxiliares do filho de Érebo caminhava tomado por profunda inquietação e angústia.
— Mestre Caronte! Mestre Caronte! — chamou, ofegante, como quem atravessara não apenas uma distância, mas também o peso de um presságio dos deuses.
Aproximando-se, disse:
— Há pouco estávamos conferindo o óbolo das almas recém-chegadas, verificando se traziam as duas moedas necessárias para custear a travessia, quando — de súbito — surgiu esse moço — apontou para ele — com um saco abarrotado de dinheiro, além de joias e moedas. Ademais, demonstrou não ter o menor respeito por nossa fila, que segue rigorosamente a ordem de chegada...

Caronte não se apressou. Seus olhos, antigos como as margens do Rio Estige, repousaram sobre o mensageiro e sobre a alma em questão com a mesma serenidade de quem já vira incontáveis urgências dissolverem-se no fluxo eterno.
— É outro “daqueles” — respondeu, em voz grave e tranquila. — E o que deseja ele? Eles sempre desejam alguma coisa...
— O senhor não vai acreditar: perguntou se o mestre não teria interesse em tê-lo como sócio neste serviço, propondo ainda elevar o valor da travessia para quatro moedas.
E prosseguiu:
— Ah, acrescentou também que, caso sua proposta para integrar a sociedade não seja aceita, deseja realizar a travessia no barco de remos de ouro, algo mais condizente com a sua pessoa, segundo ele.
— Entendo... entendo... Esse ser é um velho conhecido. Faz quase cem anos que permanece preso nesta margem, incapaz de se desfazer de suas tão queridas trinta e duas moedas de prata e de outros apetrechos materiais.
— Quanto à travessia no barco especial, não lhe é permitida, pois ele se destina exclusivamente aos iniciados ou àqueles de coração puro, como as crianças. E, pelo comportamento que demonstra, por óbvio não se enquadra em nenhuma dessas hipóteses.
Coçou o chapéu, pensativo.
— Façamos o seguinte: como ele já está por aqui há oitenta ou noventa anos e pouco aprendeu nesse tempo, vamos encaixá-lo — sem a sua “riqueza” — na travessia do próximo iniciado, que ocorrerá daqui a uns dois ou três anos. Com isso então passará a ser problema do Guardião da Margem do lado de lá: Cérbero. Ele, que com suas três cabeças caninas, garante que nenhuma alma saia e que nenhum vivo entre naquele domínio sem permissão. Certamente encontrará solução para o caso dele.

O dono do saco de tesouros, até então calado, finalmente falou:
— Mais três anos aguardando aqui? Nem morto...
Com um breve sorriso — algo raríssimo nele — o responsável pela travessia replicou:
— Meu irmão, meu irmão... só se morre uma vez...
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