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Mostrando postagens de março, 2025

"MINHA MÃE"

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        Hoje vou pedir-lhe permissão para falar sobre minha mãe. Antes de tudo, ela foi uma heroína que, mesmo  semi analfabeta e sem qualificação para nenhuma profissão condigna, sozinha criou quatro filhos. Meu pai abandonou a família quando eu tinha treze anos. Já falei dele aqui. Ela trabalhava de segunda a sexta como servente em um Órgão público; aos sábados era diarista, limpando casas; e seus domingos eram preenchidos com a lavagem de nossas poucas roupas e outras atividades domésticas.   Foi graças ao esforço e perseverança dela que consegui estudar. Em todas minhas séries escolares acompanhava meu rendimento nos estudos, travando relação de amizade com minhas professoras, que, às vezes, também viravam suas “clientes” como diarista.       Numa ocasião, coisa de moleque, envolvi-me numa briga no colégio e apanhei duas vezes – do meu oponente e dela. Tinha um surrado e temido cordãozinho de ferro elétrico para aqueles momentos, qu...

'UM PAI SABIDO!"

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        Quando perguntam por que meu nome é tão diferente e até mesmo meio esdrúxulo, respondo que é em razão de o meu pai ter sido um grande erudito, e por isso me batizou com um epíteto de etimologia grega. Uma combinação das palavras “doron” – “presente” ou “dádiva”; e “Theos”, que significa “deus”. Portanto, o significado dele pode ser interpretado como “presente dos deuses” ou “dádiva divina”. E mais, digo também que ele era estudioso da história universal e quis homenagear um bispo cristão homônimo, do início da era cristã (cristianismo primitivo) – São Dorotheu. Como se não bastasse, falo ainda que ele era admirador do Doroteo Arango, mais conhecido como Pancho Villa, um dos líderes mais famosos da Revolução Mexicana. Impressiona, né?  Eitha pai sabido! Só que não foi nada disso. Ele era analfabeto, daqueles que usam a assinatura digital. É bem verdade, ostentava no bolso da camisa, de maneira escandalosa,   três canetas big de diferentes c...

"UM CACHORRINNHO CHAMADO ONG"

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    Hoje a ONG veio buscar o cachorrinho que foi abandonado na casa da esquina, da qual os donos se mudaram, mas não deu muito certo. Mesmo com dificuldade de mobilidade, acompanhei o trabalho deles e do chaveiro, tirando fotos para embasar a notícia crime que redigi. E não deu certo por uma razão muito simples: as moças da tal da ONG não tinham nenhum tato para lidar com cachorros – quiseram usar nele o famigerado “laço gambão”, que no meu pequeno entender, dependendo como é usado (e elas não sabiam usa-lo) -, pode ser considerado uma prática cruel para eles.      Ele, a “pessoinha” mais meiga que conheci, ficou assustado e – para minha alegria – saiu em disparada em entrou no meu quintal (havia deixado o portão aberto). Mudou de endereço. Vai ficar comigo e com os gatos – aqui terá cama, comida e roupa lavada… Busquei lá também seu brinquedo predileto (o pedaço da bola de capotão) que ele não larga para nada. Como não sei qual era seu nome resolvi chama-lo d...

“Não julgueis, para que não sejais julgados (…)"

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   Hoje é o aniversário do meu pai. Seriam noventa e sete anos. É bem provável de que há muito tempo ele já não se encontre mais neste Plano. A última vez que o vi contava com meus treze anos e alguns dias; e ele com quarenta e dois.   Isso faz cinquenta e quatro anos. Lembro-me vagamente dele, e o que ouvi e ouço a seu respeito sempre é em tom   depreciativo. “Homem fraco”, “Bêbado”, “Abandonou a família”. E por aí vai… Muitas dessas pedras, por sinal, são as “primeiras” de muita gente – “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra” (João 8,1-11). Meu presente para seu natalício é me permitir exercitar a empatia – vou tentar me colocar em seu lugar neste dia.    Na sua terra de origem foi um respeitado vaqueiro. Ela ficava no agreste nordestino e, para ser mais específico,     no sertão baiano, terra de Lampião, Antônio Conselheiro e de seguidores do Padim Ciço (só gente boa – “fina nata!”).     Fugindo da seca de cinquenta e...

"UMA ÁREA INDISCRETA"

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      O fantástico filme “Janela Indiscreta”, para quem não lembra, foi um clássico do suspense,   com James Stuert e Grace Kelly, em cujo enredo, o personagem principal, um fotógrafo que após sofrer um acidente e ficar com a perna engessada, passa a espionar seus vizinhos pela janela de seu apartamento. Pois é, inspirei-me nele para transformar a área da frente de minha casa em uma “Área Indiscreta”.   Por estar com a mobilidade reduzida, e por aquele espaço ser bastante arejado e propiciar uma boa visão da rua e da vizinhança, passo parte do meu dia ali; ora lendo, ora escrevendo, ora “vendo” o movimento. É bom frisar, não faço uso de binóculos nem tenho tendências voyeurísticas, como era o caso daquele fotógrafo. Bem, acho que não... Pela minha rua, num bairro eminentemente residencial, não passa mais de uma dúzia de pessoas por dia. Algumas na parte da manhã; outras à tarde. Mesmo com a certeza de nem o Alfred Hitchook conseguiria transformar aquele lo...