“Pequenas coisas… grandes abalos”

 

 Celular Viciado Jovem Feliz Caminhando Olhando Para O Telefone Em Sua Mão  Com Fios E Dispositivos Ao Seu Redor. Móvel Ilustração do Vetor -  Ilustração de jogador, internet: 175493132

 A gente sabe — pelo menos racionalmente — que não se deve permitir que pequenas coisas nos aborreçam, sobretudo quando o nosso equilíbrio emocional já está fragilizado. Mas nem sempre conseguimos. Hoje aconteceu comigo.

Minha saúde não anda das melhores. A mobilidade tem se tornado mais limitada, e às vezes me vejo esquecendo detalhes básicos do cotidiano. Se continuar assim, não duvidem que um dia desses eu escreva “çapo” em vez de “sapo”. Brinco, mas a verdade é que convivo com uma enfermidade neurológica que até o nome é feio: Demência com Corpos de Lewy,  com quadro de  degeneração progressiva, que não tem cura; o que exige de mim um constante exercício de serenidade.

Mas não é sobre ela que quero falar hoje.

O que me tocou — e, confesso, me abalou — foi algo que vivi há poucas horas. Eu estava na Casa Espírita em que pratico psicografia, um lugar fantástico que é  um verdadeiro remanso. Estar ali, naquela espaço tão bem cuidado, ao lado de trabalhadores voluntários sempre gentis, já é um bálsamo. Um lenitivo para a alma cansada.

No entanto, algo me entristece sempre que observo,  durante a palestra que antecede o passe, alguns frequentadores — pessoas que ali vão buscar ajuda, seja para questões físicas ou espirituais — utilizando o celular como se estivessem em qualquer ambiente cotidiano. Trocam mensagens, deslizam a tela, distraem-se… tudo isso diante do palestrante e, sobretudo, diante do Plano Espiritual que se dispõe a ampará-los. É uma falta de respeito que dói, porque revela o quanto ainda somos frágeis em nossa disciplina interior. Às vezes parece até — e peço perdão pela sinceridade — que estão numa lanchonete, não num templo de socorro espiritual.

Ali, entre o salão de palestras e a câmara de passe, há uma pequena antecâmara de espera — e é precisamente lá que, sem sombra de dúvida, o atendimento espiritual mais profundo já começa.

Não sei se posso afirmar que sou médium vidente. Talvez não. Mas, de vez em quando, me ocorre aquele fenômeno que costumo chamar de ver com a alma, como se um clarão silencioso abrisse, por um instante, a cortina do invisível.

Pois bem: hoje eu estava naquela antecâmara, sentado entre dez ou quinze pessoas. E três delas não desgrudavam dos "abençoados"  celulares.
Uma, para minha infelicidade, exatamente ao meu lado — a luz azul da tela cintilando como uma pequena insolência diante do sagrado.

Foi então que, do nada, o ambiente mudou de vibração.
Pela porta entraram duas figuras, com certeza  pertencentes a outra ordem de existência.

O primeiro era um senhor de pele escura, barba bem delineada, semblante sereno e concentrado. Vestia um jaleco azul, longo, impecável, que descia até quase o meio das pernas.

Caminhava com a segurança mansa típica de quem domina plenamente a arte de curar.

Logo atrás vinha uma senhora muito bonita, de meia idade,  trajando um jaleco branco, curto, amarrado atrás, carregando uma prancheta. O olhar de ambos era de atenção total — desses que parecem medir não os sinais vitais do corpo, mas os sinais silenciosos da alma.

Não tenho dúvida: eram um médico e uma enfermeira do outro Plano, ali em serviço. Entraram e observaram o ambiente com discrição e nobreza, como profissionais que examinam uma sala antes de iniciar um procedimento delicado.

E eu, naquele instante, percebi algo com absoluta nitidez: enquanto nós, encarnados, travamos pequenas batalhas contra distrações tolas, eles travam lutas maiores — para nos proteger, nos equilibrar, nos recolher do caos interior que carregamos sem perceber.

Aquele senhor de tez escura, ia de pessoa em pessoa naquele pequeno recinto, movendo-se com a calma técnica de quem está acostumado ao serviço sagrado. Parava diante de cada um, colocava a mão direita na testa do assistido — um toque breve, firme, quase clínico — e, após alguns segundos de silenciosa avaliação, ditava algumas palavras à enfermeira que o acompanhava.

Ela, atenta, registrava tudo na folha presa à prancheta, como quem anota sinais vitais invisíveis: vibrações, necessidades, carências, predisposições do espírito.

Eu observava aquilo tudo em estado de discreto encantamento, tentando não perder nenhum detalhe daquele atendimento do Plano Maior que se desenrolava ali na antecâmara.

Pois bem: quando ele se postou diante da moça ao meu lado — aquela que continuava a dedilhar o celular com a urgência artificial de quem acredita estar sempre atrasada para alguma coisa — o médico espiritual não hesitou, cumpriu o ritual: tocou-lhe a testa com a mesma dignidade e zelo dispensados aos demais.

Mas então, após poucos instantes, ele, olhando para o celular dela, balançou a cabeça negativamente. Foi um gesto tão simples… mas tão expressivo… Um balançar de cabeça que não era de impaciência, nem de julgamento — antes, parecia traduzir uma espécie de melancólica compreensão, algo como:

“Ah, humanos… humanos… sempre tão distraídos no momento em que mais precisam estar presentes.”

Foi um ato terno, quase paternal, que dizia mais do que as palavras poderiam - a incapacidade do homem de silenciar por dentro para receber aquilo que, vindo do Alto, exige atenção, humildade e recolhimento.

O comportamento daqueles usuários do celular, naquela hora tão imprópria, realmente me abalou. Porém, passada a agitação interior — e embora meu senso de humor seja, por natureza, um tanto tacanho — não pude evitar imaginar uma placa bem-humorada pendurada naqueles ambientes, com os dizeres:

“DURANTE OS TRABALHOS DA CASA, SÓ ATENDA O CELULAR SE FOR O SENHOR JESUS. E SÓ TROQUE MENSAGENS SE FOR COM ELE”.

Concluo dizendo que eu – e todos nós – aprendamos, pouco a pouco, a fazer esse silêncio. Para que, quando os benfeitores adentrarem a antecâmara de nossa vida, não nos encontrem distraídos e com o celular às mãos, mas inteiros e prontos para ouvir e receber os bons fluídos.

 

Dorotheu.

 

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