"A COLÔNIA AZUL"

Há um lugar além do tempo, onde o vento não sopra em direções contrárias e o silêncio é canto. Chamam-no de muitos nomes, como Colônia, Estância... - em meu sonho eu o chamei de Colônia Azul.
Ali chegam as Almas, os Espíritos, as Consciências libertas do peso da carne. Não são todas, porém, que atravessam o rio Hades. A travessia é dádiva concedida aos que souberam amar e servir; e o barco só desliza quando as águas estão serenas, como o coração que já aprendeu o perdão.
Aos que deixaram rastros de dor ou indiferença, a espera pode ser longa, durando, talvez, dezenas de anos e até séculos inteiros, na contagem que fazemos por aqui. Esse hiato, segundo alguns, é o Purgatório dos católicos, o Naraka dos budistas, o Barzakh dos muçulmanos, o Guehinom dos filhos de Israel, o Umbral dos que seguem Kardec...
Mas penso, em minha limitada visão, que é apenas o véu de Ísis — ainda fechado aos nossos olhos — que nos leva a nomear o invisível de tantas formas.
Não sou o José das Escrituras, intérprete dos sonhos do faraó, mas, como já disse, tive um sonho que me visita até hoje. Sonhei com a Colônia Azul — nome que minha alma inventou, como quem recorda algo que um dia já viu.
Talvez, diria Freud, tenha sido o reflexo do filme Nosso
Lar, que assisti à época, filme este que por sinal não faz jus ao livro de
André Luiz.

Mas, o que vi naquele sonho transcendia
qualquer imagem criada por mãos humanas. A paisagem era de um verde impossível
— um verde que não existe nos jardins da Terra, nem mesmo nos bosques da manhã. Compará-lo seria como opor um fusquinha a um porsche.
A grama cintilava sob uma claridade que parecia não vir do sol, e as árvores se
moviam como se respirasse orações. Os jardins ultrapassavam em harmonia o
esplendor paisagístico dos castelos franceses, e em cada flor havia uma centelha viva da
Criação.
Ali, o Éden parecia refeito — sem Adão, sem Eva,
sem o fruto proibido.
Havia feras e cordeiros, aves e homens, todos convivendo lado a lado, na mais
perfeita harmonia e em fraternidade perfeita. Vi — e ainda vejo — um leopardo
brincando com um serelepe vira-lata contente, como se a própria inocência
houvesse voltado ao mundo.
![]()
No centro, erguia-se um Templo majestoso, de colunas gregas e essência eterna. Seu interior era eclético e luminoso: ali se uniam os obreiros de Hiram, os oficiais rosacruzes silenciosos e os iniciados de Pitágoras, cada qual irradiando sua parcela de luz, todos vibrando em uma só harmonia.
As criaturas daquela Colônia eram belas — não pela forma, mas pela vibração. Flutuavam suavemente, a poucos palmos do chão, como quem não carrega mais o peso da matéria.
Quando pedi para assistir a uma de suas cerimônias sagradas, fui despertado bruscamente pelo ronco rude da caminhonete de um contrário, enxertada de alto falantes e com gosto duvidoso de música (música?)
Não consegui
voltar a dormir pois fiquei a pensar, num misto de referência e de
alegria: se uma Colônia de paragem
intermediária já irradia tamanha luz, como será então o Sétimo Céu dos Cristãos?
O Paraíso?
Os Reinos Celestiais?
O Gan Éden dos hebreus?
O Jannah dos filhos do Islã?
Os Beyuls dos Tibetanos?
O Oriente Eterno?
A Crótona… ?
Talvez todos esses nomes apontem para o mesmo destino: um Lar onde o Amor é a única linguagem, e o Azul — não o do céu visível, mas o da essência divina — é a cor com que Deus reveste os que aprenderam a amar.
Comentários
Postar um comentário