"ENQUANTO AINDA POSSO ESCREVER"
Hoje, mais uma vez, peço licença para falar dos meus filhos. E veja bem: não é por vaidade — é porque o dia é especial. Sou meio avesso a esse negócio de sair compartilhando sentimentos pelas redes, mas hoje é aniversário de um deles, o Ivan. E ele está na Indonésia, participando de um seminário. Veja só: meu filho virou cidadão do mundo.
Durante o doutorado, morou um tempo em Londres e depois em Viena. Agora, trabalha no gabinete do Ministro da Saúde. A fluência no inglês veio lá da adolescência, no Instituto de Línguas da UEM, que tanto prezo. Ah, e também é pianista — embora tenha deixado o piano de lado depois de seis anos de estudo. A escolha do curso de inglês teve um empurrão meu; o piano, foi influência da mãe.
Fui eu quem o ensinou os primeiros movimentos no tabuleiro de xadrez — parei no Gambito da Dama. Hoje, ele me vence com estratégia e elegância. Fui também quem o ensinou a ligar o primeiro computador de mesa e a dar os primeiros cliques na internet discada. Agora é ele quem me salva quando algo trava.
Aos dezoito anos, já na universidade, mexi mundos e fundos pra ele entrar no CPOR – Centro de Formação de Oficiais da Reserva - arranjei até uma recomendação de um general. Mas, no dia da entrevista, o danado declarou ser pacifista, contra armas. Fiz tudo certo… só não combinei com os russos.
Quando ele ainda era pequeno, comprei um globo terrestre. A gente brincava de adivinhar as capitais dos países. Talvez tenha sido ali que nasceu o desejo dele de ver o mundo todo de perto.
Com o Marcelo, realizei sonhos que não consegui alcançar. Ele foi um goleiro excelente no futebol de salão (é dom ou treino?), virou médico, oficial do Exército (deu baixa como primeiro-tenente), e chegou a Venerável Mestre — posso dizer, já que a Maçonaria hoje é discreta, mas não mais secreta. Ele passava as tardes comigo no escritório, depois da escola. Fazia pequenas tarefas e, na maior parte do tempo, estudava. Dizem que puxou de mim o gosto pelos livros. Verdade ou não, somos leitores vorazes.
E o Vítor, o caçula… Era fascinado pelo Super Mario. Vivia me perguntando como fazia pra “entrar” na tela e jogar com o Mario de verdade. Quando ganhei uns joguinhos de computador do Positivo, onde eu trabalhava como advogado, ele ficou extasiado. Aquilo acendeu nele o desejo de “morar dentro do computador de vez”. Talvez ali tenha nascido sua paixão por T.I. Mais tarde, cursou engenharia da computação.
Na simplicidade do meu pai, ter um filho “letrado” era fazer até a quinta série do primário. Três das minhas irmãs são “letradas”. Uma delas, nem isso. Cresci nesse contexto. E talvez por isso me emocione tanto ao ver onde meus filhos chegaram. A vida foi generosa comigo. Consegui dar a eles o que nunca tive: condições de estudar de dia e descansar à noite — ao contrário do que vivi, como tantos da minha geração.
Desculpem-me por escrever demais. Talvez eu esteja mais sensível. Fui diagnosticado com uma demência degenerativa. O nome é feio: “corpos de Lewy”. Mais cedo ou mais tarde, ela vai afetar minha memória, minha lucidez.
Então vou escrevendo enquanto ainda posso.
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