"Vade Retro, Tinhoso..."

Como não estou em condições físicas de dirigir, tenho recorrido com certa frequência ao Uber para me deslocar, às quartas-feiras, até a fisioterapia. Embora seja advogado, sou de natureza introspectiva e pouco dado a conversas — sobretudo com desconhecidos. Na última quarta-feira, porém, ao chamar o aplicativo do local onde me encontrava, fui atendido por um motorista sui generis, para dizer o mínimo.
Com jeitão do padre Kelmon sem uma cueca na cabeça —, ele mal esperou que eu, com alguma dificuldade, acomodasse o corpo no banco de trás para disparar, sem cerimônia:
— Aqui é uma igreja, moço?
— Igreja? Não… não é. É uma clínica. Por que a pergunta?
— Porque a fachada do prédio é diferente… e também por causa da espada nas suas mãos.
— Espada?
— Sim, a Bíblia Sagrada.
De fato, eu trazia em uma das mãos um volumoso livro sobre a História do Vaticano, de capa preta, sem qualquer ilustração. À primeira vista — para um olhar apressado, ou excessivamente inspirado —, aquele calhamaço poderia perfeitamente passar por uma “espada”: a Bíblia.
Senti que vinha coisa… E veio. Antes mesmo que eu pudesse completar o raciocínio, ele emendou:
— O senhor tem todo o jeito de pastor. É de qual congregação?
— Desculpa, amigo, não sou pastor, não. E o livro não é a Bíblia. É sobre os papas.
Bocudo. Falei demais. Perdi a chance de ouro de ficar calado.

— Aqueles filhos do Tinhoso, que usam camisolas brancas?
— Então… né.
— O senhor sabia que todos eles vão queimar no fogo do inferno?
— Não, não sabia. Coitados.
— Pois é. E os seguidores deles também.
De novo, minha maldita língua solta:
—
Ah, é? Quer saber de uma coisa: no fundo do fundo, acho que vai ser bom. Aqui
tem feito muito frio ultimamente. Se pelo menos o senhor ligasse o ar quente...
— O senhor tá debochando de coisa séria.
— Não, não estou, não. Essa possibilidade de visitar a casa do Chifrudinho eu até acho interessante. Ouvi dizer que ele cuida bem dos seus. Acho que vou ter um tratamento VIP.
— Vade retro, Satanás…
E assim terminou nossa gloriosa conversa. Nada como o maravilhoso, terapêutico e absolutamente celestial silêncio que reinou na continuação da jornada.
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