"Pobre STF. Quem te viu, quem te vê."
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Sempre procurei manter-me alheio a acontecimentos negativos envolvendo ministros do STF — uma estratégia básica de sobrevivência psíquica. Tenho preocupações muito mais relevantes a administrar, como a qualidade da ração dos meus gatos, a procedência do sachê e o colapso emocional que neles se instala quando o pote não está cheio até a exata linha imaginária que eles consideram aceitável.
Mas fui derrotado. Joguei a toalha. Toffoli — sempre ele, presença cativa como vilão recorrente de novela das oito — viajando em jato particular ao exterior em companhia do advogado do Master. Toffoli, com parentes orbitando nas maracutaias daquele banco. Toffoli, abraçado ao processo do Master com o zelo de uma mãe coruja e, de quebra, em franco atrito com a Polícia Federal, por "razões" que se desconhecem. A grande tragédia nacional foi ele não ter sido aprovado naquele malfadado concurso para juiz em São Paulo. Se tivesse passado, talvez hoje estivesse apenas aposentado, jogando dominó numa praça qualquer, e nós um pouco menos cansados.
Mas a ópera não termina aí — porque toda ópera bufa exige um coro. Entra em cena o escritório de advocacia da esposa do ministro Alexandre de Moraes, agraciado com um contrato milionário. E quando digo milionário, não falo desses milhões plebeus, de padaria. Refiro-me à delicada, modesta e quase simbólica quantia de R$ 129 milhões. Um valor tão pedagógico que ensina, sem precisar de apostila, o verdadeiro significado da palavra “independência” — financeira, evidentemente.
Diante desse espetáculo, resta admitir que Shakespeare não escreveu ficção: apenas antecipou o noticiário brasileiro. Há, sim, algo de profundamente podre no reino da Dinamarca — embora, por aqui, o cheiro seja tão forte que já não distingue fronteiras, cortes ou togados. E o pior: parece que todos fingem não sentir.
E pensar que já vestiram aquela toga um Teixeira de Freitas, um Paulo Brossard, um Clóvis Beviláqua… homens que entendiam o Direito como ciência, limite e responsabilidade — não como acessório de viagem internacional nem como adereço de camarim.
Pobre STF. Quem te viu, quem te vê.
De guardião da Constituição a figurante fixo do noticiário
policial-institucional.
Triste, muito triste...
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