"O DIA EM QUE A TERRA PAROU."
Movido mais por estudo do que por fé — e, admito, por certa insônia teológica —, na noite passada resolvi começar a reler o Apocalipse. Trago com esse livro da Bíblia uma relação antiga e um tanto traumática, desde os tempos de seminário, quando cometi a imprudência de questionar, numa aula, sua autoria, sem possuir qualquer argumento, nota de rodapé ou sombra de embasamento que me salvasse do vexame. Foi ali que aprendi que convicção sem bibliografia é apenas teimosia com roupa de domingo.
Por sinal, naquele ambiente de estudo, descobri cedo que professores, padres e freis costumam estimular, num primeiro momento, as teses mais improváveis dos seminaristas não por apreço ao debate, mas por puro esporte intelectual. Algo como quem solta a pipa só para ver até onde o vento leva — e depois corta a linha. Tenho cá comigo que, ao final do antigo clássico em Agudos-Sp (depois científico e hoje chamado, com certo otimismo, de ensino médio ou segundo grau), já estava praticamente decidido quem, após o noviciado e o curso de Teologia (na Ordem dos Franciscanos em Rondinha RS e em Petrópolis Rj) seria pároco numa paróquia esquecida do interior e quem seguiria rumo ao Vaticano para estudar filosofia pesada, daquelas que fazem Santo Agostinho parecer literatura infantil. Penso que iria ser enquadrado no primeiro caso, não sei…

Mas, voltemos ao Apocalipse. Independentemente de quem o tenha escrito — o discípulo mais amado por Jesus ou outro qualquer (não no sentido pejorativo)-, nunca consegui me impressionar muito com seus personagens. Os quatro cavaleiros do infortúnio sempre me pareceram atrasados para a festa: fome, guerra, peste e morte? Ora, isso a humanidade produz com eficiência industrial há séculos – infelizmente -, e isso sem precisar de trombetas, selos ou cavalos estilizados. Quanto às bestas, confesso certa decepção: esperava algo mais assustador. Hoje, nos noticiários e nas redes sociais, elas me parecem quase simpáticas.
![O dia em que a Terra parou [Resenha] – Teia Neuronial](https://teianeuronial.com/wp-content/uploads/2009/06/diaterraparoufeatured.jpg)
Porém, a leitura, desta vez, acabou me levando a recordar de um filme maravilhoso a que assisti quando jovem, O Dia em que a Terra Parou (1951). Um daqueles raros casos em que a ficção científica resolve ser mais sensata do que a realidade.
Nele, diferentemente de tantos filmes posteriores — em que qualquer criatura vinda do espaço já chega querendo destruir Nova York —, o alienígena não é o vilão. Os verdadeiros perigos, como de costume, são bem mais familiares: o medo, a intolerância e o belicismo humanos, esses velhos conhecidos que dispensam maquiagem, efeitos especiais ou discos voadores.

O enredo dele, em linhas gerais, é simples e quase ingênuo — o que só o torna mais incômodo: um ser de outro planeta pousa calmamente em Washington, D.C., trazendo uma mensagem objetiva: ou a humanidade aprende a se comportar, ou será gentilmente retirada do convívio interplanetário. Nada pessoal. Apenas protocolo.
A recepção, previsivelmente, não é das melhores. Generais entram em pânico, políticos desconfiam, cientistas tentam explicar e o cidadão comum faz o que sempre fez diante do desconhecido: reage com medo, tiros e conclusões precipitadas. Afinal, dialogar nunca foi nosso forte.
Aquele filme ainda revela, de forma até certo ponto fictícia, que as civilizações avançadas no universo enfrentaram o mesmo dilema da nossa Terra – guerras constantes, disputas de poder entre nações e o risco de autodestruição. A solução encontrada foi radical:
Criaram robôs extremamente poderosos — como aquele que o acompanhava —, programados, de forma irreversível, não para governar, mas para policiar. Sua autoridade estava acima de qualquer governo, planeta ou espécie, e sua tolerância a qualquer agressão armada era rigorosamente zero. Não negociavam, não hesitavam, não se deixavam convencer.
Caso alguma civilização violasse as regras mínimas de convivência pacífica, a resposta era automática e absoluta — chegando, se necessário, à destruição completa do planeta infrator. Nada de debates, recursos ou comissões especiais. Apenas execução fria do protocolo. Graças a isso, disse ele, viviam em paz – talvez porque tenham sido forçados a ela.
No fundo, O Dia em que a Terra Parou não fala sobre extraterrestres. Fala sobre nós. Sobre a incapacidade humana de lidar com limites, autoridade moral ou responsabilidade coletiva. O verdadeiro choque não é imaginar robôs policiando o planeta, mas reconhecer que talvez precisemos deles.
O Apocalipse sempre me pareceu exagerado. Depois daquele filme, comecei a achar que ele é apenas mal interpretado. O fim do mundo, afinal, penso eu, raramente chegará com fogo e enxofre. Virá em atas, protocolos, ultimatos educados — e decisões tomadas por quem já perdeu a paciência conosco.
Não sou cinéfilo, mas, ainda em relação ao filme, em 2008 houve um remake estrelado por Keanu Reeves, que – na minha opinião – não chega aos pés do original. Talvez por perder a sutileza e o peso filosófico do primeiro, ou talvez porque o brilho do grande Michael Rennie ofusque o Keanu Reeves.
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