"NÓS, OS "HUMANOS", E OS ANIMAIS"

 

 Imagens vetoriais de Homem com bengala | DepositPhotos

Por estar adoentado, não tenho condição de fazer várias coisas. A escrita, felizmente - por enquanto - não é uma delas. Escrever sempre foi meu hobby, quase uma terapia, e por isso — talvez sem pedir licença — deixo esses textos escaparem para o grupo de WhatsApp. Como eles chegam também até você, peço perdão pela intromissão.

 

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Atualmente estou com dois gatinhos que moram comigo — ou melhor, talvez seja mais honesto dizer que eu moro na casa deles. Durante o dia, fazem-me companhia. À noite, não. À noite, ambos saem pela janela da sala (que mantenho estrategicamente aberta) e vão maloquear, como todo gato que se respeita.

Um deles, já de certa idade, é claramente bipolar — daqueles cujo humor muda em frações de segundo. E bravo. Muito bravo. Um verdadeiro veterano de guerra, sempre pronto para um conflito que só ele enxerga.

O outro parece uma criança serelepe, cheio de energia, com vocação para caçador de lagartixas. Mais do que isso: preocupa-se comigo. Acredita, sinceramente, que minha ingestão de proteína é insuficiente e, em um gesto de cuidado felino, volta e meia deposita uma ou duas delas no meu travesseiro. Uma forma de carinho.

Só por Deus…

 528 Uber Logo High Res Illustrations - Getty Images

E, falando neles,  os pets, ou simplesmente “animais”, hoje um motorista de aplicativo conseguiu me aborrecer — o que, convenhamos, já não é tarefa simples. Estou seriamente cogitando passar a usar um galho de arruda atrás da orelha sempre que recorrer a esses serviços.

Foi assim: o sujeito atropelou um cachorrinho preto, de pequeno porte, que usava uma coleira de couro com uma  etiqueta de plástico. Muito provavelmente ali estavam gravados o endereço e o telefone de seu tutor.

 Cão atropelado por carro - ícones de transporte grátis

Diante da cena, perguntei, ainda acreditando em alguma civilização residual:

— Moço, o senhor acabou de atropelar o cachorro. Não vai parar para socorrê-lo?

Ao que ele respondeu, com a serenidade burocrática dos indiferentes:

— Não posso. Estou trabalhando.

Respirei. Contei até três. E devolvi:

— Sim, mas a corrida é minha. Logo, em tese, o senhor está trabalhando para mim. E eu, apesar da minha dificuldade de mobilidade, posso interrompê-la.

Houve um silêncio breve, desses que antecedem ou uma reflexão profunda ou nenhuma reflexão.

 

— Façamos assim — concluí. — Eu desço do seu carro, chamo outro aplicativo, e o senhor me ajuda a  socorrê-lo.

— Se o senhor insiste…

— Sim, insisto. Só peço que o coloque na calçada, porque, por conta da bengala, não vou conseguir.

— Me aparece cada um – resmungou.

Apesar da má vontade cuidadosamente cultivada, concordou. Desceu do carro, retirou o pequeno atropelado da rua e o acomodou na calçada, com a eficiência mecânica de quem cumpre uma tarefa sem compreender o motivo.

— Moço, não vai dar para fazer muita coisa por ele. Está morto. Quer continuar com a corrida?

— Não, obrigado. Descobri que algumas companhias, quando prolongadas, fazem mais mal do que bem. E, com todo respeito, não sei qual é sua religião, mas creio que sua prática de cristianismo — se é que me permite chamá-la assim — anda precisando de revisão.

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— O senhor está tratando um cachorro como se fosse um ser humano. Isso não está certo. Não está na Bíblia.

Confesso que não tive argumentos imediatos para contestá-lo. Conheço as Escrituras Sagradas apenas de forma superficial e, ali, percebi que discutir seria inútil. Ainda assim, tomei uma decisão silenciosa: estudar com mais cuidado as passagens bíblicas que se referem aos chamados “animais irracionais”.
Mas isso fica para a próxima crônica.

A propósito, na etiqueta da coleira estava escrito: “Meu nome é Paçoquinha e quem cuida de mim é a Arlete – 99974-62…”.

Mulher Chorando de Desenho Animado Ilustração Vetor EPS | Designi
Liguei para ela e dei a má notícia. Chegou rapidamente — devia morar nas redondezas. Ao ver o seu amiguinho naquele estado, pôs-se a chorar. Um choro verdadeiro, desses que nascem do vínculo e do amor. Um choro que, arrisco dizer, aquele motorista jamais conseguiria produzir.

 

 

 

 

 

 

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