"NÓS, OS "HUMANOS", E OS ANIMAIS"

Por estar adoentado, não tenho condição de fazer várias coisas. A escrita, felizmente - por enquanto - não é uma delas. Escrever sempre foi meu hobby, quase uma terapia, e por isso — talvez sem pedir licença — deixo esses textos escaparem para o grupo de WhatsApp. Como eles chegam também até você, peço perdão pela intromissão.
* * *

Atualmente estou com dois gatinhos que moram comigo — ou melhor, talvez seja mais honesto dizer que eu moro na casa deles. Durante o dia, fazem-me companhia. À noite, não. À noite, ambos saem pela janela da sala (que mantenho estrategicamente aberta) e vão maloquear, como todo gato que se respeita.
Um deles, já de certa idade, é claramente bipolar — daqueles cujo humor muda em frações de segundo. E bravo. Muito bravo. Um verdadeiro veterano de guerra, sempre pronto para um conflito que só ele enxerga.
O outro parece uma criança serelepe, cheio de energia, com vocação para caçador de lagartixas. Mais do que isso: preocupa-se comigo. Acredita, sinceramente, que minha ingestão de proteína é insuficiente e, em um gesto de cuidado felino, volta e meia deposita uma ou duas delas no meu travesseiro. Uma forma de carinho.
Só por Deus…
E, falando neles, os pets, ou simplesmente “animais”, hoje um motorista de aplicativo conseguiu me aborrecer — o que, convenhamos, já não é tarefa simples. Estou seriamente cogitando passar a usar um galho de arruda atrás da orelha sempre que recorrer a esses serviços.
Foi assim: o sujeito atropelou um cachorrinho preto, de pequeno porte, que usava uma coleira de couro com uma etiqueta de plástico. Muito provavelmente ali estavam gravados o endereço e o telefone de seu tutor.
Diante da cena, perguntei, ainda acreditando em alguma civilização residual:
— Moço, o senhor acabou de atropelar o cachorro. Não vai parar para socorrê-lo?
Ao que ele respondeu, com a serenidade burocrática dos indiferentes:
— Não posso. Estou trabalhando.
Respirei. Contei até três. E devolvi:
— Sim, mas a corrida é minha. Logo, em tese, o senhor está trabalhando para mim. E eu, apesar da minha dificuldade de mobilidade, posso interrompê-la.
Houve um silêncio breve, desses que antecedem ou uma reflexão profunda ou nenhuma reflexão.
— Façamos assim — concluí. — Eu desço do seu carro, chamo outro aplicativo, e o senhor me ajuda a socorrê-lo.
— Se o senhor insiste…
— Sim, insisto. Só peço que o coloque na calçada, porque, por conta da bengala, não vou conseguir.
— Me aparece cada um – resmungou.
Apesar da má vontade cuidadosamente cultivada, concordou. Desceu do carro, retirou o pequeno atropelado da rua e o acomodou na calçada, com a eficiência mecânica de quem cumpre uma tarefa sem compreender o motivo.
— Moço, não vai dar para fazer muita coisa por ele. Está morto. Quer continuar com a corrida?
— Não, obrigado. Descobri que algumas companhias, quando prolongadas, fazem mais mal do que bem. E, com todo respeito, não sei qual é sua religião, mas creio que sua prática de cristianismo — se é que me permite chamá-la assim — anda precisando de revisão.
— O senhor está tratando um cachorro como se fosse um ser humano. Isso não está certo. Não está na Bíblia.
Confesso
que não tive argumentos imediatos para contestá-lo. Conheço as Escrituras
Sagradas apenas de forma superficial e, ali, percebi que discutir seria inútil.
Ainda assim, tomei uma decisão silenciosa: estudar com mais cuidado as
passagens bíblicas que se referem aos chamados “animais irracionais”.
Mas isso fica para a próxima crônica.
A propósito, na etiqueta da coleira estava escrito: “Meu nome é Paçoquinha e quem cuida de mim é a Arlete – 99974-62…”.

Liguei para ela e dei a má notícia. Chegou rapidamente — devia morar nas
redondezas. Ao ver o seu amiguinho naquele estado, pôs-se a chorar. Um choro
verdadeiro, desses que nascem do vínculo e do amor. Um choro que, arrisco
dizer, aquele motorista jamais conseguiria produzir.
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