"EU E OS DISCÍPULOS DO STÉDILE."

 

 Nota de repúdio à violência e em solidariedade aos companheiros da FETRAF -  MST

No final dos anos oitenta do século passado e ao longo da década seguinte, atuei profissionalmente na região conhecida como Bico do Papagaio, na defesa de um conglomerado de agronegócio sediado em Curitiba, com expressivos interesses fundiários naquele extremo norte do país. Tratava-se, mais precisamente, de uma extensão de 13.200 hectares, que passou a ser alvo de investidas recorrentes promovidas por integrantes da Comissão Pastoral da Terra e pelo então ainda incipiente MST, o qual, embora em fase inicial de organização, já ensaiava a postura combativa, turbulenta e, em algumas vezes violenta,  que viria a caracterizar sua atuação, lançando um desafio direto ao direito constitucional de propriedade.

À época, aquela região era marcada por um grau extremo de violência em razão dos conflitos agrários envolvendo fazendeiros, grileiros, silvícolas, sindicatos rurais e diversos outros atores locais. Para não ir longe, basta dizer que naquela parte do mapa, circulavam, com inquietante naturalidade, informações sobre “prêmios” oferecidos pelas cabeças de juízes, promotores e advogados dos latifundiários  — inclusive com  tabelas de valores atribuídos a cada uma delas.

 Desenho De 4 Policiais Estão De Pé E Protegendo Ilustração do Vetor -  Ilustração de desenho, américa: 185841492

 Relembremos que foi ali que, anos mais tarde, ocorreu o terrível conflito de Eldorado dos Carajás, sobre o qual possuo apenas uma compreensão parcial, como quem observa à distância um acontecimento ainda envolto em névoa. O erro naquela operação militar, a meu ver, não foi  o confronto em si, mas a decisão  do comando da tropa de realizar uma reintegração de posse, armada como se fosse uma invasão estrangeira: metralhadoras, espingardas e o que mais de grosso calibre que estivesse disponível no almoxarifado bélico. Não inocentá-los-ia  de modo algum, pela morte dos 21 acampados e pelos mais de 60 feridos; mas, ainda assim, se por ventura fosse trabalhar no júri que os julgou, não hesitaria em sustentar a tese da legítima defesa como atenuante.  Como conter uma turba ensandecida que avançava armada de facões e foices, afiadas não apenas no ferro, mas no ódio? A psicologia das massas tem lógica própria — e raramente civilizada – é a chamada mente coletiva. Naquela circunstância extrema, parece que só havia uma alternativa para os policiais. Infelizmente, ela envolvia puxar o gatilho.

 Cultura Aeronáutica: Os Boeing 757-200 da Varig: uma história de sucesso

Naqueles anos, em média duas ou três vezes por mês, eu viajava a Belém e ao interior do Pará — algumas vezes iniciando o percurso a partir de Curitiba, outras a partir de Maringá, onde sempre mantive residência. O deslocamento era sempre longo e cansativo, com escalas e conexões em diferentes capitais. No trecho entre Brasília e Belém havia um voo da hoje falida Varig, extremamente concorrido, que oferecia assentos na classe executiva.

Advogado De Desenho Animado Ilustração do Vetor - Ilustração de feliz,  desenho: 16132959

 Foi nesse contexto que acabei fazendo amizade com dois ou três colegas de profissão, que atuavam na defesa da parte contrária — a Pastoral e o MST — e que também se deslocavam do sul até lá; os quais, pasmem, viajavam confortavelmente instalados naquela  classe especial, degustando sucos e cruzando as pernas. Eu, advogado dos proprietários das áreas invadidas, seguia fielmente na classe econômica, disputando apoio de braço e espaço para os joelhos. Há coisas que simplesmente não se explicam. Talvez seja melhor mesmo não explicá-las. Se Shakespeare estivesse a bordo, diria, com absoluta propriedade, que havia algo de muito podre no reino da Dinamarca. Alias, falando nela, o governo da Dinamarca era um dos que abasteciam financeiramente a CPT – Comissão Pastoral da Terra. Talvez,  taí  o cacife dela para contratar advogados de primeira linha.

Daquela época guardo a lembrança de duas situações particularmente inusitadas, ambas ocorridas quando o processo de desapropriação já se encontrava em trâmite na comarca de Paragominas, distante quase trezentos quilômetros de Belém.

Hoje vou contar uma delas.

 Para chegar até lá, eu costumava alugar um carro no aeroporto daquela capital e seguia pela rodovia Belém–Brasília, uma estrada notoriamente perigosa sob diversos aspectos. A pavimentação encontrava-se em estado lastimável, exigindo constante perícia para desviar de enormes buracos que se sucediam ao longo do percurso. Em condições normais, a viagem levaria em torno de três horas e meia a quatro horas; naquela época, porém, o mesmo trajeto consumia facilmente quase nove horas, tamanha era a precariedade da estrada.

 RUA ESBURACADA

Além disso, havia longos trechos em que se rodava por trinta ou quarenta quilômetros sem avistar uma alma sequer. Nenhum posto de gasolina, nenhum restaurante de beira de estrada, nenhuma borracharia — absolutamente nada. Apenas o mato, o asfalto mal remendado e a certeza íntima de que, se algo desse errado, ninguém ficaria sabendo.

E deu.

Numa tarde escandalosamente ensolarada, sob um calor que faria o diabo pedir ar-condicionado, um dos pneus do carro alugado furou. Tentei substituí-lo, mas logo descobri que isso seria impossível por um motivo tão banal quanto decisivo: a encrenca  da chave de rodas estava espanada, com o encaixe completamente desgastado, o que impedia a remoção dos parafusos.

Não havia o que fazer.

Sentei-me no capô do carro e passei a executar, sempre que surgia um veículo no horizonte — quando surgia — o quase ritualístico sinal maçônico de pedido de socorro. Sempre que passava um carro. Ou melhor: quando passava.

 Vetores de Desenho De Ferramenta Chave De Roda e mais imagens de Esboço -  Esboço, Oficina de automóvel, 2015 - iStock

Após quase duas horas sendo lentamente assado pelo sol, surgiu um velho Opala prata. Reduziu a velocidade, mas não parou. Passou por mim e o motorista — óculos fundo de garrafa, expressão de poucos amigos e muitos pecados — observou à distância aqueles gestos estranhos que eu fazia com as mãos sobre a cabeça com curiosidade antropológica. Seguiu uns duzentos metros, reduziu novamente, fez meia-volta e retornou.

Estou salvo, pensei. Um irmão. Eu era novo na Ordem, um aprendiz entusiasmado, ainda bastante empolgado com nossos sinais.

Tomado por um imediato sentimento de alívio, aproximei-me dele:

  Nossa Grande Arquiteto do Universo, senhor de tudo e de todos. Muitas  bênçãos para nossos irmãos e nossas famílias. Boa semana a todos! #gadu  #quiosquedomacom #deus #maçonaria #maçom #maçons #fé #paz #prosperidade #

— Boa tarde, irmão. Foi o Grande Arquiteto do Universo quem lhe enviou. Estou com dificuldade para trocar o pneu e já começava a ficar preocupado. Logo vai anoitecer.

Ele não respondeu. Nem com o contra sinal, nem com qualquer palavra.

Limitou-se a me olhar, visivelmente intrigado, por segundos que pareceram horas.

— Quem me enviou? Não conheço nenhum arquiteto. E por que o senhor não consegue trocar o pneu?

— A chave de roda está espanada. O carro é alugado. Só descobri agora.

— Desculpe, mas não posso ajudar. Os parafusos da roda do Opala são diferentes. Para onde o senhor ia?

— Paragominas. Acho que ainda faltam uns cento e cinquenta quilômetros.

— Estou indo para Ipixuna, uns trinta quilômetros antes. Posso lhe dar carona até lá. Se fosse o senhor, não ficaria parado aqui. Este é um dos pontos mais perigosos da estrada.

Olhou-me por sobre o aro dos óculos com as lentes crossas e completou, com um meio sorriso:

— E tenho a impressão de que o seu amigo arquiteto não vai ser de muita valia… a não ser que ele esteja com uma garrucha calibre 32 de dois canos, carregada.

— Façamos o seguinte — respondi. — O senhor poderia me dar carona até o posto de gasolina ou a borracharia mais próxima? Lá tento pedir emprestada, ou mesmo comprar, uma chave de rodas adequada.

— Há um posto a uns quarenta quilômetros daqui, mas no outro sentido — disse ele —, ao lado do nosso acampamento de São Marcos. E ainda uma coisa, se deixar seu carro sozinho aqui é pouco provável que vá reencontra-lo na volta. 

 BONÉ TRADICIONAL MOVIMENTO SEM TERRA - VERMELHO

Quando, instintivamente, olhei para o interior do carro dele, gelei. Ali, no banco do passageiro, estavam um boné vermelho, com o inconfundível símbolo do MST, e um velho revólver — gasto pelo tempo, é verdade, mas ainda muito convincente.

— Pensando bem, moço — tratei de recuar —, acho que vou contar com a sorte e ficar aqui  mais um pouco. Talvez apareça alguém com uma chave compatível. Agradeço muito a gentileza de ter parado.

— Você é quem sabe — disse ele. — A propósito, o que o leva a Paragominas?

186.200+ Roupa De Cama Ilustração de stock, gráficos vetoriais e clipart  royalty-free - iStock

 — Colchões e roupa de cama, amigo. Sou vendedor… — respondi, com uma convicção que nem eu mesmo reconheci.

Eu, hem!

E continua…

 

 

 

 

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