"ELES SENTEM..."'

 

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Quando recém-formado, fui nomeado interventor de uma Sociedade Protetora dos Animais — à época, a primeira instituída naquela capital. Foi ali que tive contato direto com o grau de crueldade a que o ser humano pode chegar em relação aos animais. Humanos? Talvez seja esse o termo que mereça ser questionado.

Hoje relatarei aqui apenas uma das muitas cenas tristes que presenciei naquela oportunidade.

 Numa tarde de sábado, fomos acionados pela Polícia Militar Ambiental para acompanhar uma diligência. Havia uma denúncia de maus-tratos a um cachorro em um bar da cidade. Ao chegarmos ao local, deparamo-nos com uma cena difícil de esquecer: sobre uma mesa nos fundos do estabelecimento, ladeada por dois  indivíduos visivelmente embriagados, encontrava-se uma pequena cachorrinha, encolhida, trêmula, com marcas de queimaduras espalhadas por diversas partes do corpo.

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 O que faziam com ela? Segundo seus algozes, estavam colocando em prática suas grotescas “teorias” sobre a chamada medicina da dor. Usavam brasa de cigarro para feri-la, numa tentativa absurda de provar o quanto um animal seria capaz de resistir ao sofrimento. Como “fundamento científico”, citavam o velho e macabro exemplo das rãs que, mesmo após fritas, ainda apresentam movimentos.

Ignoravam — ou preferiam ignorar — que tais movimentos daquelas  nada têm de resistência consciente: são apenas reflexos musculares que persistem por algum tempo após a morte, quando as células nervosas ainda mantêm atividade residual. A ciência explica. A consciência, não.

Ali, naquela mesa imunda, não se experimentava qualquer teoria médica. Exercitava-se apenas a velha, crua e injustificável crueldade humana.

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 Aquela cachorrinha acabou sendo adotada por mim. Viveu cerca de treze anos. Dei-lhe o nome de Zoreia, por causa das orelhinhas grandes, que me lembravam as do Dumbo, de Walt Disney.

Há, porém, um detalhe que nunca deixou de me inquietar: Zoreia jamais superou o trauma. Bastava surgir uma pessoa estranha em nosso apartamento para que, sem latir, sem reagir, ela se recolhesse imediatamente para debaixo da cama. Ali permanecia imóvel, em silêncio, como quem aprende cedo demais que o mundo não é um lugar seguro.

Ela não temia barulhos, nem outros animais. Temia o ser “humano”.

E, convenhamos, tinha razões de sobra.

Algumas feridas não deixam cicatriz visível. Ficam alojadas em regiões mais profundas — onde não chegam pomadas, discursos ou boas intenções. O tempo, que tantos acreditam ser remédio universal, com ela foi apenas um anestésico parcial. Zoreia viveu amada, cuidada, respeitada. Mas jamais esqueceu.

Talvez seja esse o ponto mais perturbador: os animais perdoam, mas não apagam. Lembram. E, lembrando, ensinam — ainda que silenciosamente — uma lição que muitos humanos insistem em ignorar: eles têm sentimentos, lembram, sofrem... Negar isso é apenas uma forma conveniente de justificar a crueldade.

 

 

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