A gente vai se ver, na Gloobo! Plim, plim…

 

 Bom dia,

Louro José | TVPedia Brasil | Fandom

 

Devo confessar, sem orgulho algum, que estou me transformando num velho ranzinza. Daqueles que, além de reclamar do clima e do volume da televisão alheia, começam a esquecer a regrinha básica do “viva e deixe viver”. Como se já não houvesse problemas mais sérios a exigir minha atenção, eis que passei a implicar com a Rede Globo. Sim, logo ela — e, pasmem, até com a comadre do Louro José.

Não me entra na cabeça como um programa culinário matinal, ostensivamente voltado às classes economicamente menos privilegiadas, dedica-se a ensinar, com ar solene e sorriso didático, o preparo de um refinado camarão ao bafo - àquela hora da manhã, enquanto o telespectador provavelmente tenta decidir entre pagar o gás ou completar o botijão com fé.

COMO FAZER OMELETE FÁCIL E RÁPIDA | Nandu Andrade

 Talvez fosse mais razoável — e, ouso dizer, mais pedagógico — ensinar como fazer um omelete caprichado, uma honesta misturinha de carne moída ou, quem sabe, uma receita criativa com aquela nobre carne de segunda, tão presente quanto esquecida na mesa do brasileiro médio. Algo mais próximo da realidade do público que assiste, ainda de pijama, sonhando não com camarões, mas como fazer para o salário não acabar no dia 10 do mês.

 O MATERIAL DIDÁTICO IMPRESSO DO PROJETO MINERVA – CURSO SUPLETIVO DE 1º  GRAU – FASE II (1973-1979): A DIALÉTICA DAS REPRE

A esse propósito, convém lembrar que os militares de 64 — ressalvo, desde já, nada tenho a favor da ideologia política da chamada revolução — criaram no rádio um programa simplesmente fantástico, de utilidade pública inquestionável, chamado Projeto Minerva. Não ensinava a flambear lagostins nem a harmonizar vinhos com sotaque francês. Ensinava coisas básicas, como fazer os canteiros de uma horta no quintal.

Ali se aprendia, entre uma vinheta solene e outra, qual a distância mínima recomendável entre a fossa e o poço, como economizar gás, reduzir o consumo de energia elétrica, aproveitar melhor os alimentos e, pasme-se, sobreviver com dignidade. Era educação prática, daquelas que não rendem likes nem patrocinadores, mas resolvem a vida de quem precisa.

Hoje, trocamos a pedagogia doméstica por camarões ao bafo e risotos conceituais. A fossa e o poço ficaram por conta da imaginação. Economizar gás virou “reduzir o fogo para selar a proteína”. E a horta caseira foi substituída por um vasinho de manjericão cenográfico, comprado pronto, só para compor o enquadramento da câmera.

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Mas hoje, em especial, escrevo a respeito dela (a Globo),  porque estamos em franca contagem regressiva para mais um reencontro com a famigerada “Casa Mais Vigiada do Brasil”. O evento se aproxima com a solenidade de um feriado nacional não oficial, anunciado por chamadas épicas, trilhas emocionadas e apresentadores com voz de quem acaba de testemunhar a queda de um meteoro.

E que fique claro: não tenho absolutamente nada contra programas de reality show — e nem poderia ter. Afinal, para exercer a mais básica forma de resistência, basta fazer uso daquele artefato revolucionário conhecido como controle remoto: um singelo clique, e pronto. Muda-se de canal, preserva-se a sanidade, ou, em casos mais extremos, desliga-se a televisão naquele horário.

O problema, penso eu, não está no programa em si, mas na dificuldade coletiva de tratá-lo como o que ele é: entretenimento descartável. Algo que deveria durar o tempo de um bocejo, mas insiste em se comportar como tema de tese por longo período; pauta de almoço em família até  em critério de avaliação moral do próximo.

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 Aliás, algo que também me surpreendeu nas primeiras edições, foi a exposição de um apresentador que eu reputava como inteligente e razoavelmente intelectualizado. Morro, mas não revelo o nome — embora ele atenda por Pedro Bial. Confesso que aquilo me causou certo espanto antropológico: um sujeito capaz de citar poetas, filósofos e tragédias gregas mediando discussões sobre quem comeu o último iogurte da geladeira.

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Já o âncora atual — justiça seja feita — parece mais afinizado com o espírito do confinamento e com seus moradores tatuados, sarados e convictos de que estão vivendo uma experiência “transformadora”. Nada contra as tatuagens, registre-se; cada um é soberano sobre a própria epiderme. Apenas constato que o figurino intelectual foi trocado por uma linguagem mais compatível com o ambiente: menos Platão, mais paredão.

Se antes havia a curiosa tentativa de conferir densidade filosófica ao confinamento, hoje temos algo mais honesto: o apresentador já não finge que está conduzindo um experimento sociológico. Limita-se a narrar o caos — o que, convenhamos, exige menos repertório e mais resistência emocional.

A seguir, vai minha avaliação do referido programa — mesmo sem ninguém ter pedido, o que, convenhamos, é a forma mais pura de opinião.

Primeiro: valoriza situações e comportamentos artificialíssimos, com foco em intrigas, romances instantâneos e fofocas recicladas, em vez de promover qualquer conteúdo que contribua minimamente para o crescimento intelectual ou cultural do telespectador. Crescimento, ali, só de seguidores.

Segundo: coloca frequentemente os participantes em situações moralmente ambíguas — quando não francamente manipulativas — apenas para gerar tensão e entretenimento. Trata-se, sem exagero, de uma exploração meticulosamente roteirizada dos sentimentos humanos, com trilha sonora.

Terceiro: exerce influência nada desprezível sobre o público em geral — e especialmente sobre os jovens — ao promover valores “elevados” como a fama instantânea, a objetificação do corpo e a glorificação da intriga bem-sucedida. Virtudes modernas.

Quarto: funciona como eficiente mecanismo de alienação em massa, desviando a atenção coletiva de questões sociais e políticas relevantes. Afinal, enquanto discutimos o paredão, ninguém pergunta pelo preço do feijão.

Quinto: fomenta estereótipos e preconceitos ao apresentar participantes com perfis previamente moldados — os “saradões”, os “vilões”, as “plantas” — e ao manipular narrativas de forma a criar heróis e antagonistas com a profundidade de um pires.

Sexto: levanta sérias questões éticas (ou a falta delas) ao expor pessoas a julgamentos públicos extremos, submetendo-as a tribunais virtuais permanentes, onde a sentença é imediata e o direito de defesa inexiste.

Sétimo: há ainda outros fatores negativos, mas vou me permitir parar por aqui, tomado pela incômoda percepção de que este nosso mundo velho, cansado e barulhento também anda ficando um pouco… louco.

No mais, desejo a todos um excelente BBB 26.

A gente vai se ver, na Gloobo!

Plim, plim…

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