A ESPÉCIE QUE SE DIZ RACIONAL...
Continuando a falar da minha experiência como interventor de uma Sociedade Protetora de Animais, presenciei também outros acontecimentos que eu preferia esquecer — mas não consigo. E isso apesar de já terem se passado mais de quarenta anos.
Um deles ocorreu quando recebemos uma denúncia — desta vez, não anônima — informando que determinado aviário, ainda numa época em que não se usava o nome pomposo de pet shop, comercializava canários e outros pássaros cantadores, cegos. Naquela época havia o mito de que, nessa condição, seus cantos seriam mais intensos, mais altos, mais “bonitos”.
Infelizmente, a denúncia procedia. O desprezível — para dizer o mínimo — dono daquele estabelecimento adotava a prática hedionda de furar os olhos das aves, privando-as da visão.
O máximo que conseguimos contra ele foi levá-lo a uma delegacia e lavrar um Boletim de Ocorrência. À época, a legislação referente aos maus-tratos contra animais ainda era muito frágil e limitada.
Aquele sujeito — no sentido mais pejorativo do termo — permaneceu menos de uma hora diante da autoridade policial. Em seu depoimento, afirmou que praticava tal ato porque, segundo sua própria lógica, os pássaros cantavam mais intensamente ao amanhecer, quando ainda está escuro. A partir disso, concluiu que a cegueira permanente os levaria a um canto mais potente, já que, para eles, a escuridão passaria a ser constante.
Quanto à crueldade de perfurar-lhes os olhos, minimizou o ato alegando que sempre se preocupara com eventuais infecções nos globos oculares deles — agora vazios — e que, por essa razão, costumava pingar álcool tanto no local quanto na agulha utilizada para tão abominável finalidade. Além da cegueira, não é preciso ser oftalmologista nem veterinário para saber que o álcool é um dos agentes químicos mais agressivos e dolorosos quando aplicado a tecidos sensíveis como os do olho, causando imensa dor.
Não gosto de manter lembranças assim ainda tão vivas, nem me sinto plenamente à vontade para expô-las aqui. Acabo soando como um militante de causa — daqueles mais radicais, com carteirinha e tudo — e não é o caso. Apenas me empolguei ao narrar fatos que, infelizmente, marcaram minha passagem por lá.
Faço, portanto, apenas mais um registro — uma última lembrança triste — e depois não volto mais a tratar do assunto.

Outra bandeira que defendemos no ano em que estive à frente daquela instituição, em parceria com o Ministério Público, dizia respeito ao uso do famigerado sedem nos rodeios. Para quem não sabe, o sedem é um equipamento de lã ou crina colocado na virilha do touro, apertando-lhe os testículos e estimulando um reflexo natural do animal de se livrar do peão, num comportamento instintivo de autodefesa da terrível dor provocada por aquele instrumento. É graças a esse artifício que até o mais passivo e manso dos touros se transforma em um feroz “salteador" de primeira qualidade.
A ignorância e a maldade humanas parecem não conhecer limites — sem esquecer, é claro, que também faço parte dessa mesma raça.
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