A "BUATE" DA DONA LÚ.

 

 

Bom dia, bom domingo,

 

 Eis-me aqui mais uma vez invadindo seu WhatsApp sem pedir permissão — o que, a essa altura, já deve constar como hábito adquirido.

O texto que segue nasceu com a pretensão modesta de ser apenas uma crônica, mas, como acontece com certas histórias quando ganham vontade própria, acabou se alongando e virou um conto, com algumas páginas a mais do que o previsto.

Sinta-se absolutamente à vontade para descartá-lo diretamente na lixeira, sem culpa e, se preferir, sem sequer lê-lo. A amizade permanecerá exatamente a mesma — intacta e sem qualquer cláusula de rescisão.

Não tenho a mínima pretensão de ser escritor. Esses textos são apenas uma forma de distração, um passatempo despretensioso… talvez algo próximo de uma terapia ocupacional para cadeirantes — com a vantagem de não exigir terapeuta nem horário marcado.

A ele.

termômetro. dois termômetros quente e frio. previsão do tempo. termômetros  meteorológicos em celsius e fahrenheit medem calor e frio. ilustração de  desenho de mão vetorial isolada 7979754 Vetor no Vecteezy

Um outro fato que vale a pena registrar sobre minhas andanças pelo Pará naquela época dos conflitos agrários, aconteceu em uma das primeiras viagens que fiz ao interior daquele Estado. Partindo de Curitiba — o que, por si só, já explica metade do problema.

O dia na capital paranaense amanhecera frio, cinzento e de humor duvidoso. A temperatura, arrisco dizer, não passava dos gloriosos dez graus Celsius  — aquela marca de frio que não mata, mas humilha. Frio que só o sul do País conhece.

Como em outras ocasiões,  eu mal aterrissava em Belém e já corria para a Justiça Federal, tentando espremer as últimas horas úteis do dia para cumprir compromissos advocatícios, costumava viajar já devidamente paramentado — o famoso “uniforme de advogado”: terno, gravata e aquela expressão grave de quem parece sempre a caminho de uma audiência, mesmo quando vai apenas ao banheiro.

Naquele dia específico, em razão do frio respeitável que castigava bastante o sul, saí do aeroporto de São José dos Pinhais vestindo um grosso terno de lã, digno de enfrentar não apenas o inverno curitibano, mas também uma eventual incursão pelos Alpes suíços ou, quem sabe, por aquela ilha no Ártico que atualmente o Trump tá de olho. 

 

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Mal sabia eu que aquele respeitável traje, tão adequado ao clima local, estava prestes a se tornar um erro de grandes proporções meteorológicas. 

 Ocorreu o seguinte: mal o avião havia pousado em Belém e eu, fiel à minha vocação para a pressa — virtude raramente reconhecida, mas intensamente praticada —, tão logo os comissários autorizaram o desafivelar dos cintos, já me postei rente à porta de desembarque. Aquela posição clássica do passageiro ansioso, meio curvado, pasta numa mão, dignidade na outra.

Pois bem. No exato instante em que a porta da aeronave  foi aberta, recebi em cheio uma onda de calor digna de fenômeno climático catalogável.  Eram 37 graus oficiais, mas com sensação térmica suficiente para derreter convicções, princípios e, sobretudo, ternos de lã – temperatura típica e normal naquela cidade.

Foi como se alguém tivesse apontado um secador de cabelo industrial diretamente para o meu corpo.  Ali, parado à porta do avião, comecei a suspeitar que aquele respeitável terno quente, minutos antes símbolo de compostura profissional, estava prestes a se tornar meu principal inimigo. 

Ainda no estacionamento do aeroporto, enquanto providenciavam a entrega do carro por mim alugado, comecei a sentir os primeiros sinais de que algo não ia bem. Surgiu uma leve dor de cabeça, aquele tipo discreto, traiçoeiro, que chega educadamente, mas deixa claro que pretende ficar. A garganta, por sua vez, secou instantaneamente, como se estivesse ficada desidratada de repente.

Quando já me encontrava no prédio da Justiça Federal, a alguns quilômetros dali, a suspeita tornou-se quase uma certeza: meu organismo não estava bem. Protestava contra a brusca e violenta alteração climática a que fora submetido. Aquilo efetivamente  não estava nos meus planos.

 Ainda assim, não me dei por vencido. Afinal, naquele momento, não parecia nada grave — pelo menos foi o que pensei, com o otimismo típico de quem ignora solenemente todos os alertas do próprio corpo, acreditando piamente que força de vontade substitui sistema imunológico.

Resolvi, portanto, seguir viagem rumo ao meu destino final: Paragominas. Quando já havia rodado cerca de 150 quilômetros pela rodovia Belém–Brasília, meu estado geral entrou em franca decadência. A cabeça parecia pesar uns cinco quilos a mais, o corpo doía por inteiro como se eu tivesse participado de uma maratona clandestina durante o voo, vieram tremores de frio — sim, frio, em plena Amazônia — e as vias aéreas, bastante irritadas,  resolveram fazer parte do quadro.

Para completar a situação — porque desgraça pouca é bobagem —, e  para piorar tudo, uma ou duas horas depois de anoitecer começou uma chuva forte e intermitente. O limpador do para-brisa trabalhava sem muita convicção, e eu seguia adiante num misto de febre, tremores e a cabeça latejando. 

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 Foi então que, através do vidro molhado, avistei à distância uma casa de madeira, quase camuflada às margens da rodovia. Num dos cantos do beiral, uma pequena lâmpada azul permanecia acesa, lançando uma luz tímida, mas suficientemente suspeita.

É aqui que vou parar — pensei em voz alta, num diálogo direto entre mim e minha falta de alternativas.

Liguei a seta — gesto de extrema educação no meio do nada — e entrei no carreador que dava acesso à construção. Ao estacionar sob aquela luz azulada, deparei-me com uma pequena placa, mal cuidada, pendurada com evidente resignação. Nela, lia-se:

“Buate da Lú.”

Não era boîte tampouco boate.

Era Buate, mesmo. Sem acento, sem culpa e, ao que tudo indicava, sem compromisso com a ortografia ou com a salvação das almas que ali paravam. Naquele instante compreendi que minha noite estava prestes a tomar um rumo inesperado — e, possivelmente, inesquecível.

 

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Empurrei a porta semiaberta e entrei. O ambiente revelava-se um bar modesto, desses que parecem ter sido montados por insistência e mantidos por teimosia. Havia um pequeno balcão, uma prateleira com algumas garrafas de bebida — poucas, mas estrategicamente posicionadas —, uma vitrine elétrica solenemente vazia e uma pequena pia que aparentava já ter visto dias mais movimentados.

Ali dentro, apenas uma mulher de certa idade, postada atrás do balcão como uma sentinela. Ainda guardava alguns traços da beleza de outrora, daqueles que não desaparecem, apenas mudam de endereço. Os cabelos, já grisalhos, estavam presos num coque severo; usava brincos baratos de pequenas argolas e ostentava aquele olhar típico das pessoas que impõem respeito sem precisar elevar a voz.

Havia nela uma mistura curiosa de autoridade e resignação. Em qualquer outro ambiente — uma sacristia, por exemplo — passaria facilmente por uma carola de fé fervorosa, daquelas que sabem de cor o nome dos santos e vigiam o comportamento alheio com igual devoção.

O contraste entre aquela pessoa e a placa do lado de fora era, no mínimo, teologicamente desafiador.

— Boa noite, senhora — pronunciei, com evidente rouquidão, aquela voz de quem não canta, não discute e não inspira confiança clínica. — Por acaso a senhora é a dona Lú da placa?

Ela me avaliou dos pés à cabeça com um olhar rápido, experiente, daqueles que dispensam prontuário médico.

— Sou eu mesma, moço. Mas aviso logo: hoje só o bar está aberto. As meninas não estão.

— Não, dona Lú — apressei-me em esclarecer. — Minhas necessidades, neste momento, são de outra natureza. Estou passando mal e preciso de uma bebida forte por causa do frio que estou sentindo. Além disso, necessito de um lugar qualquer onde eu possa dormir ou descansar um pouco… ou, se isso não for possível, uma manta emprestada. Eu durmo no carro mesmo — naturalmente, se a senhora permitir que ele permaneça estacionado no seu pátio pelo resto da noite.

Ela me ouviu com atenção, sem esboçar surpresa, censura ou malícia. Apenas assentiu levemente com a cabeça, como quem já tinha visto coisa pior chegar ali em condições ainda mais lamentáveis.

— Por favor, sinta-se em casa — disse, com naturalidade desconcertante. — Vou preparar-lhe um conhaque de alcatrão com leite quente e mel. Esse remédio levanta até defunto.

Confesso que, naquele momento, a expressão “até defunto” me pareceu excessivamente otimista — mas reconfortante.

— Também vou providenciar uma canja de galinha  bem quente (não tenho nenhuma simpatia por carne de frango,  mas não estava em condições de ser exigente). Quanto ao pernoite, o senhor pode ficar no sofá da minha casa, que é nos fundos. Aqui na frente ficam os quartos das moças… e elas não gostam que sejam usados nas suas ausências.

Disse isso com a mesma firmeza com que se enuncia uma cláusula pétrea da Constituição.

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 Dormi naquele sofá quase até o final da manhã do dia seguinte e acordei sensivelmente melhor. Não completamente curado — longe disso —, mas suficientemente recomposto para constatar, com certa lucidez, que ainda não estava em condições de seguir viagem.

— Dona Lú, agradeço imensamente tudo o que a senhora fez por mim — disse, agora com a voz menos cavernosa. — Já me sinto melhor, mas ainda não em forma para pegar a estrada. Seria problema se eu passasse o resto do dia por aqui? Naturalmente, pagarei  a diária.

Ela respondeu com a mesma tranquilidade com que alguém autoriza um parente distante a ficar mais um pouco.

- Não tem problema não, moço. Pode ficar, sim. Aqui de dia quase não tem movimento. Fez uma breve pausa, como quem se lembra de um detalhe logístico.

— O único senão é que preciso ir até a cidade ver se consigo resolver o problema das meninas. Mas o Elviro — que nos ajuda na limpeza dos quartos e do bar — vai estar por aqui.

A seguir, completou, com tom sério e preventivo:

— Vou avisar a ele que o senhor não é freguês. É meu convidado. Qualquer coisa que precisar, é só falar com ele.

Naquele momento, senti-me oficialmente promovido: de viajante febril e perdido na rodovia Belém–Brasília a convidado da casa na Buate da Lú — distinção rara, concedida sem formulário, sem carimbo e sem qualquer possibilidade de recurso.

No final daquela tarde, ela retornou sozinha, sem as “meninas”. Curioso — e já suficientemente recuperado para me meter onde não havia sido chamado — puxei conversa.

— A cidade fica a quantos quilômetros daqui, dona Lú? Deu tudo certo por lá?

— Fica a trinta e oito quilômetros — respondeu. — Mas não deu certo na Delegacia, não. Só consegui entregar uma sacola com alguns itens básicos pra elas.

 Hesitei por um instante, mas acabei perguntando:

— Desculpe a indiscrição… elas estão presas?

— Estão, sim. Só neste começo de ano já é a segunda vez.

Aquilo aguçou ainda mais minha curiosidade profissional — defeito crônico,  reconheço — e insisti:

— Mas presas por quê?

Ela respondeu com a serenidade de quem já repetira aquela história vezes demais:

— Implicância do delegado. Ele diz que nossa atividade é crime. Sempre que ele manda prendê-las, somos obrigadas a pagar uma quantia determinada por ele. Afirma que é para cobrir o custo dos papéis do processo…

Fez uma breve pausa e concluiu:

— Mas desta vez pediu um valor bem maior. E não temos o dinheiro. O movimento, infelizmente, não anda bom.

— Dona Lú, acho que ainda não tive a oportunidade de dizer — comecei, escolhendo as palavras com cuidado —, mas eu sou advogado. Se a senhora permitir, gostaria de ajudar as meninas. É o mínimo que posso fazer em retribuição a tudo o que a senhora está fazendo por mim. Ela me olhou com uma expressão mista de surpresa e avaliação crítica, como quem tenta encaixar uma informação nova numa estante já cheia.

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 - O senhor advogado? Quem diria…

— Pois é — respondi. — O hábito não faz o monge… e nem o monge faz o hábito.
Confesso que, naquele momento, não tive absoluta certeza de qual das duas frases era mais “profunda”, mas ambas me pareceram perfeitamente adequadas à situação.

— Diga-me uma coisa — continuei, já embalado pela súbita vocação missionária. — Vi que a senhora dirige. Se puder dirigir  o meu carro — ainda não estou em condições físicas para tanto —, podemos ir até a cidade ainda hoje. Preciso passar numa farmácia para comprar alguns medicamentos e, aproveitando o deslocamento, gostaria de ir até a Delegacia.

Ela arqueou levemente a sobrancelha.

— Não sou criminalista — apressei-me em esclarecer —, mas desconfio que já sei exatamente o que está acontecendo por lá.

Naquele instante, percebi que minha estadia na Buate da Lú acabara de mudar de categoria: deixara de ser repouso terapêutico e entrara oficialmente no campo da intervenção jurídica improvisada, com direito a todas suas atribuições legais.

 Na delegacia.

 

Charge - 10 e 11 de outubro de 2017 - Tribuna Ribeirão

Uma das maiores sinas da advocacia é lidar com os chamados “delegados de calça curta” — personagens que, embora investidos de autoridade policial, não tiveram uma formação jurídica formal. São figuras relativamente comuns em cidades pequenas, onde o cargo chega antes do Código.

Esses delegados costumam operar segundo um Direito próprio, híbrido e criativo, formado por intuições morais, experiências pessoais, convicções religiosas ocasionais e uma leitura muito seletiva da lei — geralmente aquela que melhor se ajusta ao humor do dia. O processo legal, quando aparece, surge como coadjuvante incômodo, desses que atrapalham a narrativa principal.

Com eles, o problema nunca é a ausência de certeza, mas o excesso dela.

Era exatamente o caso.

— Doutor Clóvis, a mulher da boate tá aqui de novo — anunciou o policial do plantão, num tom de voz alto, burocrático, quase entediado. — E tem um cidadão de cor (!) com ela. Posso deixar eles entrar na sua sala?

Do outro lado da porta, veio a resposta seca, sem necessidade de maiores explicações:

— Não. Só se ela estiver com a minha encomenda.

 Respirei fundo. Aquilo não era uma delegacia; era um balcão de repartição pública com menu oculto.

— Por favor, pedi ao cabo - que volta e meia alisava suas insígnias/divisas, como a dizer “vejam com quem estão falando” -, diga a ele que o “cidadão de cor”  é o advogado dela. Por vários e longos minutos permaneci ali, ao lado da dona Lú, refletindo silenciosamente sobre como, em certos lugares, o Direito entra pela porta dos fundos — se entrar — e sempre com a documentação errada.

O cabo entrou, voltou algum tempo depois e informou, com a naturalidade de quem relata o clima:

— É pro senhor entrar. Só o senhor; ela não.

A frase soou menos como constatação e mais como provocação institucionalizada. Algo do tipo: “disse que é advogado”, categoria jurídica que, ali, aparentemente exigia prova adicional, reconhecimento em cartório ou revelação divina.

— Boa tarde, moço. Não lhe conhecia. -  Seu documento…

— Pois não — respondi, entregando-o com calma. — Mas permita-me uma pequena correção prévia: não sou moço, tampouco cidadão de cor. Sou advogado e, cá entre nós dois, um advogado muito curioso. Ele examinou minha identidade funcional com atenção exagerada, como quem procura defeito em nota de dinheiro.

— Aqui diz que voc… — interrompeu-se, pigarreou — que o senhor é do Paraná. Não está um pouco longe de casa?

— Não, não estou — respondi, com a serenidade de quem já explicou isso mais vezes do que gostaria. — E, para constar, a carteira da OAB é de âmbito nacional. Ainda assim, por excesso de zelo — virtude pouco valorizada por aqui, percebo — tomei a providência de comunicar à OAB – Seção Pará — e ao Tribunal de Justiça deste Estado que estou atuando em diferentes comarcas daqui, na defesa de interesses dos  meus clientes.

Fiz uma breve pausa, apenas para garantir a digestão da informação.

— Clientes estes — prossegui — que podem ter domicílio tanto no sul quanto no norte do País. Nessas circunstâncias, estou plenamente habilitado a defender os interesses da senhora Lú…

Inclinei-me levemente para a frente.

— … e das moças que o senhor mantém em cárcere aqui, sem — ao que tudo indica — qualquer motivo legal minimamente defensável.

O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi mais do que isso.

— As moças estão encarceradas em razão de suas “atividades” profissionais — disse ele, realçando a palavra atividades como quem sublinha algo com marca-texto moral.

— Pelo que sei — respondi —, trabalhadoras do sexo, desde que adultas e no exercício voluntário de sua atividade, não praticam crime algum.
Fiz uma breve pausa, apenas para reorganizar o cenário.
— Há ainda outro pequeno detalhe — prossegui. —como elas já estão sob sua custódia há mais de uma semana. Logo, presumo que o senhor tenha comunicado a prisão ao Juiz da Comarca. Caso contrário, ele ficará sabendo por meio do pedido de revogação da prisão, que ajuizarei ainda hoje em favor delas.

Ele me encarou com uma expressão entre o enfado e a condescendência pedagógica.

— Não sei como as coisas funcionam no seu Estado, doutor, mas aqui não adotamos essa prática. O Juiz só é informado quando se trata de crime grande.

— Interessante — observei. — Pelo que consta, nosso Código de Processo Penal é o mesmo, tanto aqui quanto lá. Inclinei levemente a cabeça.

— Mas, como meu raciocínio é um pouco lento, só para eu entender melhor: qual foi exatamente o crime “não grande” que elas cometeram?

Ele hesitou. Olhou para o lado. Tossiu. Assumiu aquela expressão clássica de quem acabou de perceber que fez algo indevido no momento mais solene possível.

Fianismo…

— Desculpe-me — interrompi —, mas se o senhor estiver se referindo ao delito de Rufianismo, não é o caso. Aqui não há exploração por terceiros.

28 Cafetão High Res Illustrations - Getty Images

   Não existe cafetão, nem cafetina. – Fiz outra pausa, agora didática.
— Aliás, mesmo que fosse assim, quem estaria hospedado nesta delegacia não seriam elas… mas eles – seus supostos exploradores.

— Mas não tem problema — acrescentei, já num tom quase reconfortante. — Para minha sorte, estou com meu notebook e uma impressora portátil. Vou redigir o pedido de revogação e depois, se necessário for, o habeas corpus,  sem maiores dificuldades.

Ele permaneceu em silêncio, o que interpretei como autorização tácita para prosseguir.

— Como estamos numa Comarca de entrância inicial — continuei, agora didático —, o Juiz que atende no plantão é o mesmo titular. E não sei se ele ficará muito satisfeito em ser interrompido durante o jantar para expedir uma mandado de soltura…

Dei de ombros.

— Mas são ossos do ofício.

Fiz então uma breve pausa estratégica, dessas que antecedem a parte mais saborosa da conversa.

— Ah, aproveitarei a oportunidade para informá-lo também sobre a existência de alguns cheques cruzados que minha cliente emitiu a favor do senhor (blefe quanto a parte de serem cruzados) — segundo ela, destinados ao pagamento das “custas” do inquérito policial.

Observei atentamente a reação.

— Tenho a impressão — acrescentei — de que o ilustre Magistrado talvez se interesse em rastrear esses cheques, apenas para verificar em qual conta bancária eles foram depositados.

Naquele momento, o ambiente da sala mudou de temperatura.
Não fez calor como em Belém, nem frio como em Curitiba.
Fez frio jurídico — aquele que não dá febre, mas provoca suores.

Delegado — finalizei — estamos diante de um verdadeiro  impasse mexicano entre duas pessoas . Não sei se o senhor conhece a expressão: é aquela situação de confronto em que nenhuma das partes consegue avançar ou atacar sem arriscar a própria derrota… ou destruição.

Ele me encarou em silêncio. Continuei, agora com a serenidade de quem já havia escrito o último parágrafo:

— Minha proposta é simples. O senhor solta as moças agora. Risca do seu caderninho de “devedores” o nome da minha cliente. E, daqui para frente, só aparece na boate dela numa única condição: a de freguês, de cliente.

Inclinei levemente a cabeça, num gesto quase cordial.

— Em contrapartida, eu não levo ao Juiz o teor desta nossa conversa. Para mim, ela simplesmente não aconteceu.

Seguiu-se um silêncio longo e espesso, daqueles que dispensam assinatura no rodapé. Não era acordo, não era ameaça, não era chantagem.
Era apenas para que ele soubesse que, às vezes, a melhor decisão é fingir que nunca se esteve errado — e agir corretamente a partir dali.

E foi assim que saí daquela delegacia, acompanhado das moças da dona Lú, que não parava de repetir, com os olhos marejados:
Foi Deus quem lhe enviou, doutor… foi Deus quem lhe enviou…

Depois daquilo, permaneci mais um dia em sua casa, dormindo novamente naquele mesmo sofá, e ali teve início uma boa amizade. Todas as outras vezes em que passei por aquela estrada — indo ou voltando de Paragominas — fazia questão de parar para cumprimentá-la. E sempre fui recebido com tratamento principesco, como se fosse da família… ou, no mínimo, da realeza local.

Cerca de uns dois anos depois daquele episódio, ao parar novamente na “Buate” para saudá-la, soube que dona Lú havia falecido, vítima de um infarto fulminante.

Anjo louco ilustração do vetor. Ilustração de desenho - 7135379

É em homenagem a ela este escrito — que nasceu como crônica, mas acabou virando conto.

Talvez porque certas pessoas não cabem em poucas linhas…
e certas histórias insistem em ficar.

 

 

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