OBRIGADO, BAMERINDUS.

 

  Bamerindus – Wikipédia, a enciclopédia livre

 Com tantas manchetes falando sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master, fui tomado por uma onda de lembranças. De repente, voltei àquele outro banco onde trabalhei por mais de uma década — o lugar onde entrei menino e saí advogado.

Eu tinha 16 anos quando fiz o teste de seleção. Nada de entrevistas complexas ou dinâmicas mirabolantes: uma prova de datilografia em máquina de escrever mecânica e umas dez ou quinze perguntas de conhecimentos gerais. Na datilografia, fui bem — 210 toques por minuto, o que, à época, era quase motivo de medalha. Já na parte “intelectual”... melhor nem comentar. Devido a minha memória pretérita, lembro nitidamente de uma das questões: “Qual a capital dos Estados Unidos?” — e eu, com toda a convicção cravei  Nova York. Gênio, definitivamente, não era.

Comecei como conferente no processamento de dados, cercado por pilhas de cartões perfurados e listagens impressas pelo computador. Quando me despedi, dezesseis anos depois, era analista pleno de Organização e Métodos – O&M. Não era muita coisa, mas, pela minha dificuldade de relacionamento – hipercrítico - percebi que nunca chegaria a gerente.

No meio do caminho, concluí os estudos básicos e a faculdade de Direito. Considerando minhas origens posso, sem modéstia falsa ou verdadeira, dizer que, socialmente falando, cresci um pouco graças aquele emprego.

Em julho de 1974, recebi o meu primeiro salário. Quase todo ele ficou na extinta Cooperativa dos Bancários — um supermercado com preços melhores e desconto direto na folha. Do segundo salário, veio a grande conquista: uma televisão Telefunken, preto e branco, comprada numa loja de eletrodomésticos usados. Lembro-me da alegria de vê-la ali, na nossa humilde pequena sala, como quem instala uma janela nova para o mundo.

  Avelino Vieira, político e banqueiro, foi o fundador do Banco Bamerindus.

 O fundador daquele Banco era um homem diferente. Talvez “evoluído” seja a melhor palavra. Ele sabia que aquela instituição não lidava apenas com números e cédulas, mas com vidas. No prédio onde trabalhei, todos recebiam café e lanche pela manhã e à tarde. O almoço? Fausto — digno de qualquer restaurante chique. Havia ainda um clube de campo enorme, aberto aos funcionários e suas famílias, com ônibus gratuito para o trajeto. Em janeiro, mais uma surpresa: o décimo quarto salário. Plano de saúde excelente. E, pela Associação dos funcionários, empréstimos sem cobrança de juros. E mais, um plano de complemento salarial para quem se aposentasse. Tudo isso porque alguém acreditava que dignidade também devia constar no balanço patrimonial.

 antiga tv telefunken,preto e branco,14 polegadas

Foi graças ao trabalho naquele Banco que pude conquistar meus primeiros grandes marcos da vida adulta: a primeira televisão (como já mencionei), o primeiro carro, o apartamento, o tão desejado telefone fixo — que, à época, era quase um artigo de luxo — e até a enciclopédia Barsa, símbolo de conhecimento e status. Mas, acima de tudo, foi ali que encontrei os meios para custear meu curso superior, já que a UEM, onde iniciei a Faculdade,  ainda não era gratuita como é hoje.

Não era apenas um Banco. Era muito mais do que isso. Para mim, foi a primeira grande porta que se abriu.

É verdade que nem tudo por lá tinha o perfume das rosas. Havia também os “contrários” — eles sempre existem, em qualquer lugar. Dois deles, em especial, foram cruéis comigo. Tive a infelicidade de tê-los tido como gerente. Talvez pela cor da minha pele… não sei. Prefiro não alimentar essa hipótese. Ainda assim, não são eles o foco desta lembrança. Basta dizer que o destino lhes foi, no mínimo, irônico. Um deles teve a carreira manchada ao se envolver em fraude bancária em uma agência que administrava no Nordeste. Talvez por isso — ou por outras razões que desconheço — terminou demitido, quase por justa causa. O outro acabou enfrentando, ele próprio, as consequências da intolerância - não vou contar como... - digamos que um trem não simpatizou com seu veículo... - a famosa leizinha de causa e efeito...a terceira lei de newton... ação e reação.

Para mim, numa história jamais totalmente esclarecida, aquele Banco — outrora gigante nacional — sofreu intervenção do Banco Central em março de 1995 e, apenas alguns anos depois, em 1997 ou 1998, teve decretada sua liquidação extrajudicial .

 Sustentação oral: o guia definitivo | Jusbrasil

 A sorte, na advocacia, quase sempre me acompanhou. Por obra do destino, tive a felicidade de construir laços de amizade e atuar profissionalmente ao lado dos herdeiros do então vice-presidente do Banco (sr, Cláudio Enoch), pessoas de uma fineza e generosidade raras. Patrocinei para eles uma ação de cobrança de vultoso pecúlio, processo que percorreu todas as instâncias até chegar ao Supremo Tribunal Federal. Tive, inclusive, a honra de realizar sustentação oral perante uma das Turmas — e logramos êxito.

Falo, sim, do Banco Bamerindus e do grande Avelino Vieira

Obrigado, seu Avelino.

 

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