OBRIGADO, BAMERINDUS.
Com tantas manchetes falando sobre a liquidação extrajudicial do Banco Master, fui tomado por uma onda de lembranças. De repente, voltei àquele outro banco onde trabalhei por mais de uma década — o lugar onde entrei menino e saí advogado.
Eu tinha 16 anos quando fiz o teste de seleção. Nada de entrevistas complexas ou dinâmicas mirabolantes: uma prova de datilografia em máquina de escrever mecânica e umas dez ou quinze perguntas de conhecimentos gerais. Na datilografia, fui bem — 210 toques por minuto, o que, à época, era quase motivo de medalha. Já na parte “intelectual”... melhor nem comentar. Devido a minha memória pretérita, lembro nitidamente de uma das questões: “Qual a capital dos Estados Unidos?” — e eu, com toda a convicção cravei Nova York. Gênio, definitivamente, não era.
Comecei como conferente no processamento de dados, cercado por pilhas de cartões perfurados e listagens impressas pelo computador. Quando me despedi, dezesseis anos depois, era analista pleno de Organização e Métodos – O&M. Não era muita coisa, mas, pela minha dificuldade de relacionamento – hipercrítico - percebi que nunca chegaria a gerente.
No meio do caminho, concluí os estudos básicos e a faculdade de Direito. Considerando minhas origens posso, sem modéstia falsa ou verdadeira, dizer que, socialmente falando, cresci um pouco graças aquele emprego.
Em julho de 1974, recebi o meu primeiro salário. Quase todo ele ficou na extinta Cooperativa dos Bancários — um supermercado com preços melhores e desconto direto na folha. Do segundo salário, veio a grande conquista: uma televisão Telefunken, preto e branco, comprada numa loja de eletrodomésticos usados. Lembro-me da alegria de vê-la ali, na nossa humilde pequena sala, como quem instala uma janela nova para o mundo.

O fundador daquele Banco era um homem diferente. Talvez “evoluído” seja a melhor palavra. Ele sabia que aquela instituição não lidava apenas com números e cédulas, mas com vidas. No prédio onde trabalhei, todos recebiam café e lanche pela manhã e à tarde. O almoço? Fausto — digno de qualquer restaurante chique. Havia ainda um clube de campo enorme, aberto aos funcionários e suas famílias, com ônibus gratuito para o trajeto. Em janeiro, mais uma surpresa: o décimo quarto salário. Plano de saúde excelente. E, pela Associação dos funcionários, empréstimos sem cobrança de juros. E mais, um plano de complemento salarial para quem se aposentasse. Tudo isso porque alguém acreditava que dignidade também devia constar no balanço patrimonial.
Foi graças ao trabalho naquele Banco que pude conquistar meus primeiros grandes marcos da vida adulta: a primeira televisão (como já mencionei), o primeiro carro, o apartamento, o tão desejado telefone fixo — que, à época, era quase um artigo de luxo — e até a enciclopédia Barsa, símbolo de conhecimento e status. Mas, acima de tudo, foi ali que encontrei os meios para custear meu curso superior, já que a UEM, onde iniciei a Faculdade, ainda não era gratuita como é hoje.
Não era apenas um Banco. Era muito mais do que isso. Para mim, foi a primeira grande porta que se abriu.
É verdade que nem
tudo por lá tinha o perfume das rosas. Havia também os “contrários” —
eles sempre existem, em qualquer lugar. Dois deles, em especial, foram cruéis
comigo. Tive a infelicidade de tê-los tido como gerente. Talvez pela cor da
minha pele… não sei. Prefiro não alimentar essa hipótese. Ainda assim, não são eles o foco
desta lembrança. Basta dizer que o destino lhes foi, no mínimo, irônico. Um
deles teve a carreira manchada ao se envolver em fraude bancária em uma agência
que administrava no Nordeste. Talvez por isso — ou por outras razões que desconheço
— terminou demitido, quase por justa causa. O outro acabou enfrentando, ele
próprio, as consequências da intolerância - não vou contar como... - digamos que um trem não simpatizou com seu veículo... - a famosa leizinha de causa e efeito...a terceira lei de newton... ação e reação.
Para mim, numa história jamais totalmente esclarecida, aquele Banco — outrora gigante nacional — sofreu intervenção do Banco Central em março de 1995 e, apenas alguns anos depois, em 1997 ou 1998, teve decretada sua liquidação extrajudicial .
A sorte, na advocacia, quase sempre me acompanhou. Por obra do destino, tive a felicidade de construir laços de amizade e atuar profissionalmente ao lado dos herdeiros do então vice-presidente do Banco (sr, Cláudio Enoch), pessoas de uma fineza e generosidade raras. Patrocinei para eles uma ação de cobrança de vultoso pecúlio, processo que percorreu todas as instâncias até chegar ao Supremo Tribunal Federal. Tive, inclusive, a honra de realizar sustentação oral perante uma das Turmas — e logramos êxito.
Falo, sim, do Banco Bamerindus e do grande Avelino Vieira.
Obrigado, seu Avelino.
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