"O ESTELIONATÁRIO FERVOROSO"

 

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 Atuei como advogado por mais de trinta anos e, principalmente   na área do direito criminal, presenciei muitos fatos bizarros, até divertidos, para dizer o mínimo.

Um dos meus clientes, por exemplo, no início dos anos 2000, era um clássico 171 — estelionatário profissional, desses que fazem o banco chorar e o gerente suar frio. Inteligente, falante e ainda por cima com citações bíblicas na ponta da língua. Antes de “crescer na carreira”, já havia se passado por padre para aplicar pequenos golpes. Um talento versátil, digamos assim.

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 Pois bem.

Nas penitenciárias existe um condomínio de luxo atrás das grades: as alas evangélicas. Ali, ex-“soldados do crime” viram “ovelhas do Senhor” com uma velocidade que faria até os evangelistas escreverem um novo testamento. E não é à toa: naquele oásis neo pentecostal, as vantagens são tentadoras — e todas muito cristãs, naturalmente:

Primeiro: proteção absoluta. Na ala evangélica, ninguém encosta. Zero facção, zero cobrança, zero faca encostando no pescoço. Jesus assume a gerência da ala — e Ele não trabalha com retaliação.

Segundo: anistia instantânea de dívidas com o tráfico. Pagou com oração, tá pago. Ah, se no mundo aqui fora fosse assim: “Aceita Jesus e apaga o cartão de crédito”. Seríamos todos salvos em três boletos.

Terceiro: remissão de pena. O Estado vibra quando alguém lê — especialmente se for a Bíblia. Com alguns capítulos bem declamados é um dia a menos no Xadrez. O camarada sai formado em Salmos, especializado em Provérbios… e, com muito boa vontade, conhece pessoalmente o Salvador.

O verdadeiro milagre? Continuar nessa conversão depois do alvará de soltura.

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 Possivelmente por alguma dessas razões,  o meu cliente iluminado pediu para ser transferido para aquele condomínio espiritual. Não sei se buscava paz, Deus ou apenas um livramento do credor errado. Consegui a transferência. Missão cumprida.

Mas não por muito tempo.

Durante um culto, o pastor-colega-de-cela discursava sobre um versículo do apóstolo João: “Jesus é o caminho…”. Era só concordar, dizer amém, permanecer invisível. Mas eis que o meu constituinte resolveu mostrar sua criatividade teológica:

“Jesus é o caminho… e o bispo Edir Macedo e o “apóstolo” Waldemiro Santiago são os pedágios.”  

Silêncio. Olhares. Clima tenso com pragas incluídas.

Resultado? Expulso sumariamente do paraíso. Expulsão relâmpago — coisa que nem o Tinhoso conseguiu com tanta eficiência na sua atuação no caso do casal da frutinha proibida.  E adivinha quem teve que entrar com pedido de seguro porque agora ele estava jurado de “patrola”?  Exatamente: eu, o advogado do estelionatário sem noção…

No jargão carcerário, ele simplesmente dormiu de touca: marcou bobeira, falou demais. Quase virou mártir involuntário do ecumenismo. Moral da história:

Zoar a fé alheia já é perigoso no mundo livre.
No cárcere, então… principalmente quando alguns dos crentes são compadres do Marcola - PCC.

 

 

 

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