'"O CHAPÉU PENSADOR"
Há muitos anos participei de um trabalho acadêmico, inserido em um grupo de estudos de natureza filosófica — creio que do vigésimo oitavo grau — vinculado a uma Instituição cujo nome, por discrição, não vem ao caso mencionar. O tema então proposto orbitava em torno da célebre sentença de Shakespeare, extraída das palavras de Hamlet dirigidas a Horácio: “a realidade não se esgota naquilo que é possível compreender”, ou, em sua formulação consagrada, “há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.”
Pois bem, recentemente, ao remexer antigos papéis durante uma dessas faxinas que são, no fundo, escavações da memória, deparei-me com alguns alfarrábios utilizados na elaboração daquele texto. Tomo a liberdade de expô-los aqui, certo de não violar qualquer juramento de confidencialidade — até porque a própria internet já se encarregou de universalizar o que outrora era reservado. Hoje, QUASE tudo da nossa Ordem se encontra ali, ao alcance de qualquer curioso, graças ao nosso perjuro irmão Google.
Por ora, limito-me a retomar algumas anotações que fiz à época, centradas no fascinante universo do estúdio Disney.

Walt Disney, é inegável, sabia das coisas. Em torno de sua vida, obra e legado gravitam inúmeros simbolismos, lendas e elementos de natureza velada — ora mística, ora alegórica. Algumas dessas interpretações pertencem, é verdade, ao domínio da especulação ou do folclore cultural; outras, contudo, parecem tocar regiões mais profundas do imaginário humano.

Entretanto, naquele vasto e encantado mundo, existia alguém que, talvez, soubesse ainda mais do que ele — ou, quem sabe, fosse mais sábio do que sabido: o quase anônimo Carl Barks. Foi Barks quem deu vida, forma e alma à fictícia cidade de Patópolis, bem como à maioria de seus habitantes: o temperamental Pato Donald, o sovina e obstinado Tio Patinhas, os cômicos Irmãos Metralha, a irreverente Maga Patalógica, e tantos outros que povoaram gerações de sonhos.
Talvez a relação entre Disney e Barks tenha sido análoga àquela entre Freud e Jung — um desses vínculos em que a criatura, por força do próprio destino, acaba superando o criador; em que o discípulo, impelido por outras intuições, atravessa os limites do mestre e funda seu próprio universo simbólico.
Peço licença para deter-me em um daqueles personagens míticos: o Professor Pardal. Mais precisamente, detenho-me sobre o chapéu que ostenta — peça cuja forma evoca uma coroa e que, longe de ser mero adereço, cumpre uma função simbólica singular. Representa a mente em permanente ebulição, o pensamento que não conhece repouso.
Desde as tradições mais remotas, a cabeça é compreendida como o assento da centelha divina, o ponto em que o humano toca o transcendente. É ali que se acende o fogo sagrado da consciência — esse lume interior que distingue o homem da matéria inerte.
Nesse contexto, o chapéu de Pardal assume o papel de coroa de invenção, uma espécie de diadema protetor do fogo intelectual. É o símbolo visível da mente criadora, mediadora entre o mundo das formas e o reino das ideias. Assim, converte-se em um canal simbólico entre o céu e a mente, à semelhança dos elmos dos deuses gregos, que resguardavam o pensamento divino em batalha, ou das coroas dos antigos alquimistas, que selavam a comunhão entre a razão e o mistério.
Há, contudo, uma ambiguidade essencial: as invenções de Pardal frequentemente escapam ao seu controle, mergulhando-o no caos que ele próprio engendra. Seu chapéu, portanto, não é apenas emblema do gênio criador, mas também símbolo do risco do excesso de pensamento — quando a mente produz mais do que o coração pode suportar.
Ele marca a fronteira sutil entre a inspiração divina e a soberba da razão, o mesmo abismo que separa o inventor iluminado daquele que se perde em sua própria engenhosidade. Assim, o chapéu de Pardal é a ponte entre o intelecto e intuição, cálculo e sonho.
Tem ainda seu famoso Chapéu Pensador, que também é mais que um adereço cômico, é o símbolo visível do pensamento em efervescência, uma antena voltada ao céu da mente — lembrando-nos, enfim, que toda criação corre o risco de transformar-se em vertigem.
Mas talvez estejamos indo longe demais. Este texto está ficando muito esotérico e metafísico. Melhor interromper aqui — antes que o pensamento também nos escape das mãos.
Encontrei outros alfarrábios interessantes, mas é assunto para outra hora…

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