Feliz Dia dos Pais, Seu Pedro.
Hoje é Dia dos Pais. Para mim, apenas mais uma data no calendário — dessas que servem mais para movimentar o comércio do que para celebrar de fato. Infelizmente, o mesmo acontece com o Dia das Mães, Dia dos Namorados, Dia das Crianças e por aí vai… Até a data do nascimento d’Ele, no vinte e cinco de dezembro, acabou reduzida a uma simples ocasião para troca de presentes.
E já que estou falando de datas, deixo registrada uma provocação: esqueceram-se de criar o “Dia dos Homens”. Sim, porque — e digo sem qualquer traço de misoginia — se existe um dia para homenagear as mulheres, também poderia haver um 8 de março para os homens.
Mas voltemos ao presente. Penso que o Dia dos Pais (assim como o Dia das Mães) deveria ser celebrado nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano. Quem é pai ou mãe sabe bem do que falo.

E é neste domingo frio, com uma manta sobre os joelhos e uma touca na cabeça — daquelas que lembram a do padre Kelmon, compadre do Messias — que resolvi escrever estas linhas como forma de desagravo e homenagem ao meu pai. Não escrevo para posar de “herói sofredor”; já disse antes que minha família vivia como os retirantes sertanejos de Vidas Secas, faltando apenas a cadela Baleia para completar o retrato.
O nome dele era Pedro, mas todo mundo o conhecia por apelidos como Baiano, Ceará ou Pernambuco. Moreno escuro, analfabeto, sem profissão definida. Um homem que não conseguiu sustentar os quatro filhos e que, vencido pela vida e pela bebida, nos deixou quando eu tinha doze ou treze anos. Pelo tempo que se passou, é provável que já não esteja mais neste mundo.
Apesar do alcoolismo, ele nunca guardava bebida em casa, nem se comportava como um bêbado diante de nós. Houve vezes em que a comida não era suficiente para todos e ele, com o “estômago virado” ou “sem apetite”, deixava de comer para que sobrasse mais para os filhos.
Lembro-me bem de um dia em que levei seu almoço até a construtora onde trabalhava como servente de pedreiro. Vi com meus próprios olhos (pleonasmo) ele dividir a marmita — já pequena — com um colega que, por algum motivo, estava sem comida. Era assim: simples, pobre, mas dono de um coração grande.
Na sua ingenuidade e ignorância, repetia que eu deveria estudar, tornar-me “letrado”, para trabalhar como cobrador de ônibus. Mal sabia ele que, anos depois, eu seguiria outro caminho.
Quando já formado, ainda fiz duas ou três tentativas de encontrá-lo em cidades do Mato Grosso do Sul. Todas foram em vão. Eu queria dizer que não precisei ser cobrador (com todo o respeito à profissão), mas que cumpri o conselho mais importante que ele me deu: estudar.
Talvez agora, por estas palavras, ele
fique sabendo.
Feliz Dia dos Pais, seu Pedro.
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