"QUANDO CRESCER QUERO SER IGUAL AO MEU PAI"

 

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Há alguns dias um amigo, por quem tenho grande consideração, contou-me um bonito sonho que tivera recentemente. Não vou conseguir narrá-lo aqui da mesma forma artística e rica em detalhes como ele o fez, mas, em síntese, foi o seguinte: encontrava-se aquele amigo numa visita comercial a uma fábrica de doces e, circunstancialmente, naquele mesmo horário,  dita fábrica também estava sendo visitada por alguns estudantes dos primeiros anos escolares, acompanhados por sua professora. Num certo momento, um daqueles alunos, quiçá o mais franzino deles e usando óculos com lentes de fundo de garrafa – o estereótipo perfeito e prato pronto para o  deleite dos bully (quem pratica o nefasto bullyng). Voltando ao sonho dele…, então, aquele garotinho, num verdadeiro rompante de alegria e felicidade, erguendo as mãos para o alto, começou a gritar: “Meu pai é o dono”, “Meu pai é o dono”. Na verdade, seu pai não era o dono – trabalhava ali.  Não tenho o dom do José da Bíblia para interpretar sonhos, mas, com certeza foi a forma daquele menino dizer a seus coleguinhas: “viram, é do meu pai”! “sou igual a vocês”!, “sou igual a vocês”! 

 Trabalhador com britadeira fotomural • fotomurais britadeira, tradesman,  destruidor | myloview.com.br

A gentileza e confiança daquele amigo em compartilhar comigo aquele sonho, trouxe-me à memória dois fatos marcantes de minha vida, envolvendo o vínculo profissão pai-filho.

 Não sou de posar de herói sofredor e abomino quem o faz, mas na minha infância também fui vítima de preconceito na escola, que à época ainda não tinha o pomposo nome de “bullyng”. Ocorreu o seguinte, meu pai era operário de uma firma de recapeamento asfáltico, onde operava uma britadeira, ferramenta barulhenta usada para quebrar concreto e asfalto, que, por tremer e fazer muito barulho, era pejorativamente associada à  moto pequena chamada lambreta; daí a desdenhosa alcunha de “lambreta de baiano”, porque a cilindrada era um dos sonhos de consumo inalcançável pelos nordestinos que vieram trabalhar no sul do país. Era o tempo todo eu ouvindo deles: “Seu pai lhe trouxe de lambreta?”  “Seu pai vem lhe buscar de lambreta?”…

 

Captação De Lixo Isolado Página De Coloração Ilustração do Vetor -  Ilustração de desenho, silhueta: 265550463

O segundo acontecimento ocorreu há anos. Todo advogado diz ter uma ação, cujos honorários darão para comprar o quarteirão inteiro. Eu tive uma assim. Não comprei o quarteirão,  mas, por algum tempo, fui picado pelo bicho do “novo rico”, com direito a carro caríssimo, marcas de luxo da cabeça aos pés (até os  guardanapos de pano tinham um jacarezinho), casa cheia de itens chamativos e outras "mazelas." “Bens e honrarias, fáceis de adquirir,  são fáceis de perder.” (Pitágoras).

Foi naquela fase de minha jornada que aprendi uma lição de vida. Ocorreu o seguinte: numa manhã de sábado, passeava de carro com um dos meus filhos, que ainda era pequeno, quando me deparei com uma cena impressionante. Um gari, com um carrinho de lixo, varria uma calçada e, ao seu lado, catando com as mãos os itens que não eram alcançados pela vassoura, estava um alegre molequinho, de uns oito ou nove anos. Fiquei sensibilizado com aquilo e travei conversa com eles. “Quem é o garoto?”. Cheio de orgulho, respondeu -  “Meu filho, doutor”. “Hoje veio me ajudar”.  Eu: “que coisa bonita!”. “Que você quer ser quando crescer, criança?”. “Quero ser igual ao meu pai.” – Admirava o serviço que seu pai fazia. De bom grado, naquele momento teria trocado minhas lacoste e minha possante camionete pelo carrinho de lixo dele, apenas para ouvir uma resposta como aquela de um filho … Os meus, frise-se,  em nenhum momento foram  ingratos, mas nenhum quis seguir minha profissão - acho que eram mais espertos do que fui.

Penso que a profissão muito bem remunerada, pode ser importante para garantir conforto, segurança e acesso a oportunidades; mas o dinheiro  – por maior que ele seja -, não compra felicidade, amizades verdadeiras, tempo ou paz de espírito – o que conta é o propósito que encontramos nela (profissão).

 

 

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