"UMA ÁREA INDISCRETA"

O fantástico filme “Janela Indiscreta”, para quem não lembra, foi um clássico do suspense, com James Stuert e Grace Kelly, em cujo enredo, o personagem principal, um fotógrafo que após sofrer um acidente e ficar com a perna engessada, passa a espionar seus vizinhos pela janela de seu apartamento. Pois é, inspirei-me nele para transformar a área da frente de minha casa em uma “Área Indiscreta”.
Por estar com a mobilidade reduzida, e por aquele espaço ser bastante arejado e propiciar uma boa visão da rua e da vizinhança, passo parte do meu dia ali; ora lendo, ora escrevendo, ora “vendo” o movimento. É bom frisar, não faço uso de binóculos nem tenho tendências voyeurísticas, como era o caso daquele fotógrafo. Bem, acho que não... Pela minha rua, num bairro eminentemente residencial, não passa mais de uma dúzia de pessoas por dia. Algumas na parte da manhã; outras à tarde. Mesmo com a certeza de nem o Alfred Hitchook conseguiria transformar aquele local em um cenário interessante para qualquer voyeur, gosto dali.

Das almas que por ela passam com frequência, uma é digna de nota. Fiz amizade com uma moça, que é “mendiga profissional”. Vejo-a todos os dias da semana, exceto nos sábados, domingos e feriados – ninguém é de ferro, muito menos ela. Passa por aqui quando está indo pro seu “trabalho”, e quando dele retorna. Deve morar por perto, provavelmente numa casa bem mais elegante do que a minha – esse ramo, dizem, dá dinheiro…
Chamo-a de “discípula de Robim Hood”, o lendário fora da lei inglesa, que, segundo a tradição, roubava dos ricos para dar aos pobres. “Como foi seu dia, Discípula?” “Ruim, doutor, a vida não tá fácil pra ninguém”. Tá, deixa quieto. Cá com meus botões, estive pensando que talvez a “atividade” dela tenha alguma serventia, pois, às vezes pode, em alguns casos, servir para amenizar o sentimento de culpa de quem dá a esmola, especialmente se a pessoa sente que tem mais recursos do que os necessitados e quer aliviar essa disparidade de alguma forma.

Não que aprecie mais os animais aos homens, mas – confesso – prefiro observar eles. Na casa da esquina, a família mudou-se há pouco tempo, colocou o imóvel à venda, mas “esqueceu” ali o viralatinha mais amoroso, mais simpático e mais esperto que já vi. Fizemos contato com uma ONG protetora, que ficou de resgatá-lo no início da semana vindoura. Embora o crime de maus-tratos a animais seja uma ação pública e por isso não depender de representação, fiz questão de redigir uma notícia crime ao Ministério Público, que entreguei para a ONG, embasada com fotos dele e uma conta de água em nome do antigo morador, indicando-o para figurar no processo. A maldade dos seres “humanos” parece não ter limites.

Voltando ao cachorrinho, ele passa boa
parte do dia brincando com o que uma hora foi uma bola de capotão na boca, e quando alguém
transita pela sua calçada, corre de um lado para outro, com uma alegria
incontida, chega a fazer xixi (eles fazem quando muito emocionados),saudando o transeunte.
Alguns moradores próximos, compadecidos com sua situação o estão alimentando – a
bondade também não tem limites, felizmente. Ontem presenciei uma cena comovente.
Um menininho, de dez ou doze anos e com uma bicicletinha levou ração para ele
e, alegria das alegrias, enfiou suas mãos na grade e, por vários minutos, ficou
fazendo carinho nele, que uivava de alegria. E, quando parou de acaricia-lo e
já estava em sua bicicleta, ele começou a chorar. Isto mesmo, uivos de choro.
Então aquele menino voltou lá e continuou sua conversa com ele. Uma cena
maravilhosa, para dizer o mínimo. O encontro de duas almas puras.
Daquela área observo outras cenas, mas elas serão objeto de outra crônica…
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