“Não julgueis, para que não sejais julgados (…)"
Hoje é o aniversário do meu pai. Seriam noventa e sete anos. É bem provável de que há muito tempo ele já não se encontre mais neste Plano. A última vez que o vi contava com meus treze anos e alguns dias; e ele com quarenta e dois. Isso faz cinquenta e quatro anos. Lembro-me vagamente dele, e o que ouvi e ouço a seu respeito sempre é em tom depreciativo. “Homem fraco”, “Bêbado”, “Abandonou a família”. E por aí vai… Muitas dessas pedras, por sinal, são as “primeiras” de muita gente – “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra” (João 8,1-11).
Meu presente para seu natalício é me permitir exercitar a empatia – vou tentar me colocar em seu lugar neste dia.

Na sua terra de origem foi um respeitado vaqueiro. Ela ficava no agreste nordestino e, para ser mais específico, no sertão baiano, terra de Lampião, Antônio Conselheiro e de seguidores do Padim Ciço (só gente boa – “fina nata!”).

Fugindo da seca de cinquenta e sete do século passado, veio tentar a sorte no norte do Paraná, buscando trabalhar na cultura do café. Estava com vinte e nove anos e deixou minha mãe e minhas irmãs pequenas aos cuidados dos avôs. Eu não era nascido; nasci perto de Paranavaí, em cinquenta e oito. A viagem que ele fez de lá pra cá durou cinco dias, em “pau de arara” (caminhões adaptados para o transporte de passageiros). Quando jovem fiz aquele mesmo percurso em ônibus leito e quase me acabei. Não era para qualquer um…
À época, São Paulo e o Paraná eram para os nordestinos a busca do sonhado “rio de leite com bordas em cuscuz”. Eles pensavam encontrar aqui a terra prometida da Bíblia e o Eldorado da lenda, que se fundava na crença de uma cidade repleta de ouro.
Não foi bem assim. Ledo engano! Primeiro, eles perdiam sua personalidade e dignidade. Viravam “Baiano”, “Pernambuco”, “Ceará”…
Algum tempo após sua chegada ao seu destino (Londrina), ele buscou a família, que também veio de “pau de arara”. Como foi a saga de pai e mãe analfabetos, sem profissão e quatro filhos pequenos? Triste, muito triste. Para ele, as duas únicas opções era ser ou boia fria, ou servente pedreiro, em ambas as hipóteses com ganho mensal igual ou inferior ao salário mínimo.
Para ela, a saída foi limpar pés de café ou lavar roupa pra fora.

O pai teve banzo (o vocábulo depressão ainda não existia) e achou por bem ter como psicóloga para fazer análise a doutora Cachaça. Foram dias sombrios, que ele enfrentou como pode, até romper seu limite. Todos nós temos um. Foi para o interior do estado, na eterna busca pelo utópico Eldorado e não voltou mais.
O que podia ele fazer na tentativa de sustentar a família com parcos recursos? O que podia ele fazer quando a família passava fome? O que podia ele fazer com a total falta de perspectivas? O que podia ele fazer nos natais e nas páscoas, quando o papai noel e o coelhinho não encontravam nosso endereço? O que podia ele fazer quando um ou outro filho adoecesse e ele não tinha condições de procurar o médico ou comprar os remédios (o SUS ainda não existia).
Não podia fazer nada ou, perdoe pelo pleonasmo, nada podia ter ele feito.

Quem sou eu para julgá-lo? Quem são as pessoas para julgá-lo? “Não julgueis, para que não sejais julgados (…)” Mateus 7:1-14.
Esteja onde estiver feliz aniversário, pai. O senhor fez por nós o que estava em seu alcance…
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