"UMA AMIGA CHAMADA SÔNIA"
Meus sonhos, como a memória, também são pretéritos. Eles são quase sempre vívidos e bem detalhados. Mereço ser objeto de estudo... É bem verdade, que interpretá-los é outra história – pareço o José da Bíblia, que interpretou sonhos no Antigo Testamento (Gênesis 40, 41). Na noite passada, por exemplo, sonhei com uma colega – colega não, amiga – do primeiro ano da universidade, há quarenta e cinco anos. Apenas do primeiro período, por que após o término dele obtive transferência pra Federal. Ela era muito inteligente e já detentora de outro curso superior. Suas notas no vestibular foram das melhores, classificando-a em segundo ou terceiro lugar – a concorrência foi de dezessete candidatos por vaga. O primeiro lugar foi de uma japinha, também muito querida e boa amiga, chamada Inês (fui o décimo terceiro colocado). Não é pejoratividade da minha parte, não. Carinhosamente, a chamávamos assim mesmo – “Japa”, ou então “Japa Inês” - ela não ligava, não dava a mínima – típico de gente grande.
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Voltando ao meu fatídico sonho, nele eu estava casando com minha linda “Dulcinéia do Don Quixote,” e ela, além de ser prima da noiva, era uma das madrinhas, fazendo par com nosso professor de língua portuguesa, um esquisitão. Tudo corria bem, até a hora do “se alguém tem algo contra esse casamento, fale agora ou cale-se para sempre”, quando o infeliz, mesmo sendo nosso padrinho, inventou de se manifestar. Não me recordo o que ele disse ao padre, mas coisa boa com certeza não foi. Bem que aquela interrupção poderia ter se dado após a fala do “pode beijar a noiva”. Tem gente que não se enxerga mesmo… Infernizam até nossos sonhos, fazendo-nos acordar na melhor parte deles.
Com todo o respeito devido ao José do Egito, não vou precisar de sua ajuda para interpretá-lo. Talvez ele tenha a ver com o tal do “desejo reprimido” de Freud, que, sob sua óptica, teria a seguinte elucidação: aquele professor, por um motivo qualquer, guardou mágoa e estava se vingando na minha fantasia. Aliás, acho que sabia qual era o desgosto dele para comigo. Vou facilitar as coisas para nosso amigo Sigmund – “ numa de suas aulas, inventei de perguntar por qual motivo se escreve a palavra maisena com “S” e se pronúncia com “Z”. Ele pensou que eu estava testando seu conhecimento do vernáculo pátrio, com uma pergunta, no seu entender, capciosa ou, ainda, uma forma de “pegadinha”, e reagiu como se tivesse feito um elogio à pobre de sua mãe: “moço, isto o senhor devia ter aprendido no ensino fundamental.” “Não disponho de tempo e nem de paciência para responder questões como essa”. Fiquei passando o maior carão, com toda a classe me olhando, como se tivesse feito pum na igreja, quando ela, muito tranquila e serena, veio em meu socorro – “professor, desculpa me intrometer, mas acho que a dúvida dele é pertinente, só não soube colocar a questão.”. E deu uma aula. “É que, além da regrinha básica de usar o “S” entre vogais, como o senhor bem sabe, tal confusão também tem muito a ver com a origem e a adaptação fonética da palavra ao português. ”O nome maisena é derivado da palavra “maize”, que significa “milho”, em inglês; do francês, por sua vez, originária do “mais” e, ao ser adaptada ao português, a palavra foi mantida com a grafia com “S”. Não, ela não estava lendo aquilo em qualquer anotação – foi uma resposta de “bate-pronto.” Com sua humildade, escondia, por vezes, a sabedoria que tinha. Fazia jus à expressão “águas paradas são profundas.”.
Eu era daqueles alunos que, às vésperas dos dias de provas, saía desesperado em busca de emprestar cadernos, para xerocopiar a matéria que ia cair nelas. Os dela eram uma maravilha e, por isso, os mais visados para os xerox, por mim e por tantos outros da turma, pela precisão e pelo capricho com que escrevia. Seu poder de síntese, ao captar as aulas, era incrível e chegava a fazer notas de rodapé, anotando, após cada ponto, expressões como: “Vai cair na prova” “Enchimento de linguiça – “Não é importante”, ou ainda, “`Professor enrolando – não se preparou para a aula. ” Aquela prática chegou a tal ponto, que o rapaz do xerox, no primeiro acesso que tinha àquele caderno, tirava várias cópias dos pontos mais procurados e fazia encartes delas, vendendo-as com um pequeno lucro. “Olha a cópia do caderno da Sônia!”. “Cinco cruzeiros!”. “Quem vai querer!?” Misericórdia…!
Nossa amizade continuou, mesmo após minha transferência para Curitiba e o término do curso. Falávamos pelo telefone com certa frequência, vezes em que procurava colher informações a respeito de sua prima. Divertidamente, tratava-me como “o primo que foi sem nunca ter sido”.
Foi ela bem sucedida na advocacia e acabou também entrando para a política, sagrando-se vereadora em Marialva, sua cidade de origem. Parece que foi por mais de um mandato.
Numa ocasião, quando ambos atuávamos na profissão, fui contratado para propor uma ação contra doze edis, de uma cidade localizada no centro do Estado, e estava com alguma dificuldade para obter legislação e literatura acerca das câmaras municipais (foi antes da internet). Recorri a ela, expondo meu problema. Ficou de dar uma olhada e me retornar a ligação. Não retornou, mas quão foi minha surpresa, quando – três dias depois - recebi pelo Sedex um rico material sobre o tema, incluindo quatro livros de autores renomados, mandados por ela.
Douta feita, acompanhei com imensa tristeza, um concurso para a magistratura no qual ela participou, tendo nele sido excluída somente na última fase – a temida prova oral, onde o sistema nervoso bloqueia o saber. Nosso Estado perdeu a oportunidade de ter uma grande magistrada…
Certo dia, quando fazia meu mestrado, ela me ligou com o intuito de se informar, de maneira genérica, sobre a prova para admissão naquela pós graduação. Falamo-nos por bastante tempo a respeito e, julgando que a informação fosse para ela, disse-lhe “você tira de letra” (verdade), quando, para meu espanto, disse-me que a dúvida não era dela, e sim para uma sua amiga, que residia em outra cidade. Apucarana, acho…
A Sônia Silvestre nos deixou cedo, vítima de uma neoplasia. Se porventura no céu houver uma Faculdade de Direito, com certeza ela estará lá, ora emprestando seus cadernos para os anjos, ora ajudando na defesa de ataques gratuitos de algum professor, ora prestando qualquer outra forma de auxílio, com sua Inteligência brilhante, simpatia e generosidade, que deixaram uma marca profunda em todos que tiveram a sorte de conhecê-la. Eu tive…
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