"UM ATEU VIRTUOSO"

 

 

Desenho contínuo de uma linha de dois amigos do sexo masculino Conceito do  Dia da Amizade | Vetor Premium

E.1 – T.2.

Não gosto de clichês nem de frases feitas, mas a que diz: “amigos de verdade  não se encontra em uma esquina qualquer”, para mim é muito verdadeira. Quando enfermo em Curitiba e transitando pelos círculos existentes na casa do “Tinhoso”, da Divina Comédia, de Dante Alighieri, foi que tive a sorte de encontrar um deles. Ocorreu numa ocasião que fui forçado a sair do meu apartamento e mudar-me para outro, por razões que aqui  não vêm ao caso.

Por sinal, quando afirmei que naquele período  fiquei morando sozinho na capital, foi meia mentira. Havia lá um gato comigo. O “Rabugento” – meu companheiro até hoje – com mais de quinze anos de idade.  

 Quadro Decorativo Cabeca De Gato Desenho 20230302161003

 

O novo endereço de nós dois passou a ser num prédio em que o estatuto do condomínio vetava a presença de animais domésticos. Mesmo sabendo que tal normativa já era tida como “não escrita” pelos Tribunais (jargão jurídico), não dispunha nem de tempo nem de paciência para travar discussão acadêmica com síndicos e, por conta disso, levei o Rabugento pra lá de forma sorrateira, na surdina da noite da mudança, numa caixa de sapatos vazia – ele ainda era filhote e também não pesava os seis quilos que pesa hoje.

 

 ilustração de motocicleta de cachorro preto de desenho animado

 

No sábado seguinte ao que mudei, não sei por qual motivo,  entrei no novo prédio pelo portão da garagem. Ao lado de uma possante motocicleta, encontrava-se alguém com físico de boxeador, alguns anos mais novos do que eu, de bermuda e camiseta regata. Não leio aura humana, mas, se porventura a lesse, diria que se tratava daquelas pessoas para quem se encaixa como uma luva a expressão: “não contrarie quem não pode ser contrariado”.          

Aproximou-se de mim:

“Você é o novo morador do 604 e que tem um gato no apartamento?” Balbuciei alguma coisa e fiquei na defensiva.

 “Você está com um grande problema: sou morador do 504, logo abaixo do seu, e meus dois cachorros não conseguem dormir em paz, por conta dos miados dele.” Rimos juntos. Também era “cachorreiro” e amigo dos demais animais. Foi ele um dos mais prestativos seres humanos que conheci. Era autodeclarado ateu,  mas seu comportamento e seus gestos eram dignos de fazer inveja a qualquer cristão fervoroso.

Aliás, a fé e a religiosidade nunca foi entrave em nossa nova relação de amizade – nunca falávamos em relação a elas. Seus cachorros era a Vitória e o Vítor. Ela, uma cachorra preta de grande porte e ele um porqueira do tamanho de um pinscher. Ambos,  vira-latas de primeira ordem. Com a Vitória, ocorreu o que nunca tinha visto antes. Ela se “apaixonou” por mim. Ninguém explica – devia ser por nós dois  termos o mesmo grau de “viralatice.” Os iguais se atraem.  Bastava me ver e uivava de alegria. Chegava ao ponto de às vezes ter que me esconder dela por causa do medo que fosse atropelada. É que ele tinha (e ainda  tem) uma loja de venda e consertos de acordeões, que ficava no mesmo quarteirão, numa avenida extremamente movimentada, e os dois pets passavam parte do dia lá. Quando ia visita-lo, ela “pressentia” minha presença quando ainda estava a uns quarenta ou cinquenta metros de distância, e nosso medo era o de que ela saísse em disparada da loja para vir ao meu encontro –, o que costumava fazer – e que pudesse ser atropelada. 

  Anúncios Classificados Grátis no Brasil | CLASF

 

Como ainda enfrentava problemas relacionados  à alimentação, não foram poucas as vezes em que ele “me arrastou” para fazer refeições com ele, em seu apartamento ou em restaurantes – sempre era ele que bancava. Eu nunca tinha dinheiro …  Naquelas ocasiões nunca bebia álcool e também não me deixava beber – era abstêmio.

Vez ou outra, ensaiávamos jogar xadrez, no que sou razoável, mas ele sempre vencia – recordo-me que em uma de nossas partidas, quando estava sob efeito de medicação e não recordava nem que o movimento do cavalo é em forma de “L”, jogamos dama. Mais fácil.

Por incoerência do destino ele, “ateu”, tinha um ajudante que se chamava Jesus e que trabalhava no piso superior da loja. Numa ocasião, quando estava lá, com a Vitória enroscada em meus pés, presenciei uma cena divertida. Uma freira entrou na loja com um violão avariado, para conserto (também os consertavam). Pegou o violão das mãos da freira, olhou, olhou, e disse:

“Irmã,  só há um alguém que pode resolver seu problema. “É Jesus”. Para assombro da pobre freira, gritou: “Jesus, desce aqui que tem uma irmã precisando dos seus serviços”.  Até o Vítor e a Vitória riram…    

 

Fundo A Freira Tocando Violão Isolado No Branco Freira Tocando Violão  Isolado No Branco Foto E Imagem Para Download Gratuito - Pngtree

 O nome dele é Ari e – pra minha sorte – nossa amizade dura até hoje. Detalhe: ele possui uma chácara onde cuida de sessenta ou setenta vira-latas.

 

 


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"A COLÔNIA AZUL"

"ENQUANTO AINDA POSSO ESCREVER"

“Pequenas coisas… grandes abalos”