QUERO OVO DE CONDORNA PRA COMER...
Hoje vou relembrar uma cena inusitada, pitoresca e divertida que presenciei no início da minha profissão. Juridicamente nunca fui de grandes luzes, mas por ser voraz leitor (herança do Seminário) sempre tive facilidade de onde obter a informação. Isso me ajudou muito, posto que fui um acadêmico displicente, que abandonou um mestrado pela metade e que fez uma especialização em ciências penais na Federal – e nunca voltou lá para apanhar o certificado de conclusão de curso. Ele ainda deve estar por lá. Mas, voltando aqui, no primeiro semestre da Escola de Magistratura do Tribunal de Justiça, fui aluno de um inteligentíssimo advogado-professor, com quem tive o privilégio de fazer amizade. Detalhe – apesar do QI acima do normal que certamente possuía, era também muito esquisito e dono de um comportamento idiossincrático – que é aquele que se diferencia do normal ou esperado. Daqueles que saem de casa com meias de cores diferentes. Dizem que os polos dispostos, ou iguais, se atraem. Para ser menos filosófico e mais popular: “um gambá só cheira outro gambá”. Então, no caso foi pela idiossincrasia e não pelo coeficiente de inteligência. Por razões que não entendo até hoje, convidou-me para trabalhar em seu escritório, que era numa grande e bela mansão, adaptada para tal. Trabalhava ele com outra advogada, recém-aprovada no concurso para magistratura. Ficamos só nós dois para acompanhar as quase setenta ações em andamento. Trabalhei com ele por mais de três anos e o pouco que sei de advocacia aprendi ali. Na parte de cima do escritório havia três salas e um banheiro. Uma era a minha. Aquele advogado, além de tudo, era de família nobre e filho de um octogenário político que fora muito atuante na assembleia legislativa do estado (ex-presidente em duas gestões).

Uma daquelas salas do piso superior era esporadicamente usada por ele, que embora também fosse advogado, não era mais atuante, usando aquele local apenas para receber um ou outro amigo antigo, que às vezes pediam-lhe para atendê-los em uma ou outra ação judicial. Quando isso acontecia era eu e ou seu filho quem as elaborávamos, passando-as apenas para ele assinar. Para preservar sua identidade, passarei agora a chama-lo de “dr. Sebastião” – nome fictício é claro. Ah sim, havia também a nossa secretária, uma moça muito competente e inteligente, que anos após minha passagem por lá, fez o curso de direito e foi atuar no ramo. Vou trata-la por “Beth” – também fictício. Costumávamos fechar o escritório no horário do almoço e ela fazia sua refeição numa edícula, que havia nos fundos da casa. Num daqueles dias, em que “dr. Sebastião”, com sua bengala, ocupava a sala dele, não saí pro almoço porque fiquei me preparando para uma sustentação oral que faria naquela tarde no Tribunal. Notei que ele também não saíra. e, por uma razão qualquer, necessitei ir até a sala da secretária, no térreo. Ao retornar, deparei-me com uma bonita moça, na faixa dos vinte anos de idade, entrando na sala dele. Não dei importância para aquilo, pensei: “deve ser uma neta dele”. Passado algum tempo, talvez uma meia hora, comecei a ouvir vozes altas. “A fechadura quebrou!”, “A fechadura travou!...” “Me tira daqui, Beth, me tira daqui!”.
Era o velhinho. Ficara preso em sua sala com a bengala e a “neta”. “E agora, dr. Dorotheu?”. “Se faça de surda, Beth” “Aguarde o dr. (…) voltar do almoço”. Passada uma meia hora ele retornou. “dr. (…), o dr. Sebastião ficou trancado na sala porque a fechadura emperrou”. “E mais, tem uma moça lá com ele”. “Demorou, demorou… com certeza é menina de programa que aquele FDP chamou.” “Liga pra um chaveiro, Beth. E passa-me a ligação.”. – “Chaveiro na linha, dr. (…).”. “Boa tarde, vou precisar dos seus serviços – estou com uma fechadura emperrada.” Depois a secretária lhe passa o endereço certinho”. “O quê? Se tem pressa? Não! Não!” “Nenhuma pressa”. ´Pode ser no final do dia, aí por uma cinco ou seis horas da tarde.”. “Fica calmo, pai!” “Já chamei o chaveiro, ele vem daqui a pouquinho”. “Fique tranquilo que a Beth vai preparar uns ovinhos de codorna para quando você sair daí!” – FDP...
Comentários
Postar um comentário