"NÓS QUE AQUI ESTAMOS POR VÓS ESPERAMOS"

Hoje gostaria de relembrar determinados fatos, ocorridos em algumas de minhas viagens. Não fui nenhum Marco Polo e o que conto aqui não se trata de esnobismo nem de esnobação, por três razões:
UMA, elas foram inteiramente custeadas por uma determinada “Instituição Global e Cosmopolita de Estudos” – Global and Cosmopolitan Institution of Studies - à qual pertencia (e ainda pertenço). Um nome pomposo, para dissimular a que veio. Vamos deixar assim…
DUAS, num mundo conectado e interligado como é o nosso, as fronteiras físicas e culturais são mais fluídas. É muito fácil viajar para outro país qualquer. A minha geração não é universalista; a dos meus filhos é. E mais, meu inglês parece ser fruto de um curso por correspondência – o Yíàzigi que me perdoe. Só consigo me comunicar naquela língua fazendo uso da linguagem mundial da mímica. Minha sorte e o que me salvou naquela viagem foi o fato de o médico, meu companheiro, ser fluente no inglês e muito paciente comigo.
TRÊS, foi-se o tempo em que viagem internacional dava “status” social a alguém.

NO EGITO - Estive lá duas vezes. Na primeira ocasião passei quarenta dias e fazia parte de um grupo de estudo, composto por seis membros (quiçá irmãos...). Dois brasileiros, ou “brasilianos” (eu e um médico de Belo Horizonte); dois alemães e dois norte-americanos. Naquelas viagens sempre era com dois de cada país. Igual Cosme e Damião. Quem nos liderava naquela feita era um dos dois americanos. Um piloto aposentado da American Airlines, com um nome inglês da Inglaterra - Mr. Maicom. Nossa ida para lá não foi para fotografar pirâmides. Nosso destino era a cidade de Alexandria, a segunda maior cidade do Egito, localizada na costa do Mediterrâneo, a uns duzentos quilômetros ao norte da capital. Para ser mais específico, era a recém-inaugurada biblioteca de mesmo nome, Alexandria ou Alexandrina (ano 2002 ou 2003). Talvez aquela biblioteca não tenha conseguido a grandiosidade da antiga, que se destacou como centro cultural do mundo helenístico, mas tudo nela é superlativo, para dizer o mínimo. O novo prédio, localizado bem próximo do antigo, tem onze andares, com grande acervo virtual, salas de conferências e leitura, audiovisual, três museus, um planetário, um ambiente onde estão reunidos manuscritos, etc. etc... Ressalte-se ainda, que na fachada daquela arquitetura moderna, na forma de um disco gigante, estão gravadas as letras dos alfabetos do mundo todo – inclusive o nosso. É cosmopolita… Ficamos naquela cidade por doze dias. Passamos por vários outros locais antes de retornarmos ao Cairo, merecendo ser citado o templo de Abu Simbel, em Aswan, já ao sul, perto da fronteira com o Sudão.

Estivemos também no Vale dos Reis, em Luxor - antiga Tebas e nas pirâmides da Necrópole de Gizé, com seus mistérios fascinantes e processo de construção que a arqueologia não consegue explicar. Como se pode explicar que blocos de pedra, pesando em média mais de duas toneladas, cortados com extrema precisão e encaixando-se um nos outros sem argamassa, com tamanha perfeição que não ficava espaço sequer para passar uma gilette entre eles? São muitas as teorias alternativas a respeito. Temos a nossa (veja-se bem, teoria): – “nosso mundo é um palco para diversas civilizações, todas elas com um começo, um meio e um fim. A que construiu aquelas pirâmides era altamente avançada e que, além de ter vencido a lei da gravidade, utilizou-se de técnicas muitíssimo avançadas, que ainda não é do nosso conhecimento." Mas esse assunto está ficando muito metafísico. Vamos voltar para o nosso Egito de hoje…
Para nos locomover naquele país fazíamos uso de dois Land Rover bastante rodados, conduzidos por motoristas locais. Um deles, com o ar condicionado avariado. Desgraçadamente era no que eu ia.
Quando retornamos ao Cairo e estávamos a uma semana de voltar aos nossos países de origem, num almoço Mr. Maicom nos disse:
“Sei que vocês estão exaustos por contas desses dias, mas nesta tarde quero leva-los para conhecer determinado local.” “Talvez um dos últimos nesta nossa jornada”. “É ao túmulo do erudito islâmico al-Imam al-Shafíí, no Cemitério de mesmo nome.” “Antes, porém, quero que cada um de vocês escreva um pequeno enunciado sobre as condições sociais das moradias em seus respectivos países”. “Pode ser em conjunto”. “Vamos sair às 15h – Entreguem-me antes”.
Ficamos intrigados. O sunita fundador da escola de jurisprudência deles, que ali jazia, não nos era estranho. No preparatório para a viagem recebemos, entre outros escritos, uma biografia simplificada de sua vida. O que estranhamos foi a relação que poderia haver entre moradias precárias e aquele túmulo. De qualquer forma, escrevemos alguma coisa sobre elas. Eu e o mineiro narramos algo a respeito de nossas favelas; os alemães provavelmente sobre seu forte sistema de habitação; e os americanos, com certeza, apontaram para os seus chamados bairros marginalizados. O hotel onde estávamos hospedados ficava a pouco menos de um quilômetro daquele cemitério, de forma que decidimos ir caminhando. Fazia um calor infernal, embora para mim não fizesse diferença – era até melhor que o interior do velho Land Rover. Quando já estávamos rente ao muro daquele campo santo, começamos a ouvir certa algazarra, que aumentava à medida que nos aproximávamos da entrada. Aquilo chamou nossa atenção, porque não estava em consonância com a expressão “silêncio sepulcral”, como era de se esperar naquele local. Acima do portão quebrado havia um dístico, escrito em árabe – alguém traduziu – “Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos”. Quando entramos entendemos o porquê da vozeria – além dos mortos, havia vivos morando naquele cemitério. Isto mesmo! Quase uma pequena vila, com casebres feitos com materiais reciclados ou baratos, a exemplo de madeirite e latas de alumínio abertas, dividindo espaço com túmulos e varais de roupa estendidos entre os jazigos mais altos. Havia até um quiosque. Em outras palavras, era consequência da pobreza extrema. Disse-nos Mr. Maicom que em todos os cemitérios do Cairo eram assim. Residência mais dos vivos que dos mortos. Entendemos a razão pela qual nos pedira aquele pequeno escrito sobre habitações vulneráveis.
Heródoto, o historiador grego, em sua obra História, no século V a.C. vaticinou que o futuro (e decadência) do Egito seria assim. A Bíblia Sagrada também: “A espada virá contra o Egito (…). “Quando os mortos caírem no Egito, quando tomarem suas riquezas e derrubarem seus alicerces (…)” – Ezequiel 30;2-4. –
Pobre Egito, tão rico e tão pobre…
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