"GATO ESCALDADO TEM MEDO DE FORNO A GÁS"

Quando era estudante tive proveitosas vivências de morar em pensionatos e em repúblicas estudantis, ou de estudantes – algumas delas com passagens divertidas. Sim, sem sombra de dúvida, elas foram marcantes – só quem passou por isso tem como aferir esse valor. Não sou nenhum “influencier”, mas recomendo. A propósito, devo dizer, tenho verdadeira ojeriza pelos chamados formadores de opinião virtuais. Quando um deles, com pinta de "saradão" ou uma socialite, ambos não sabendo diferenciar a Belém que Jesus nasceu da homônima Belém do Pará, e com não sei quantos mil “seguidores”, se julga na condição de “recomendar” desde os mais diferentes e banais itens de consumo e, pasmem, até a indicar aplicações para investimentos financeiros, é um sinal de que nosso mundo está ficando doido (ou nossa sociedade). “Um cego que guia outro cego cai no abismo” – Mateus 15-14 e Lucas 6:39.

E, ainda na minha humilde opinião, o apóstolo João, deve ter sonhado com eles ou com o BBB quando escreveu sua terceira visão profética, no livro do Apocalipse, com seus quatro cavaleiros. George Orwell, por sua vez, deve estar se revirando no túmulo, por terem plagiado seu “Grande Irmão”, do livro 1984, de sua autoria. Mas, respeito quem faz torcida na “provas do líder” ou na “prova do anjo”; ou ainda quem seja um “seguidor” de alguém nas redes sociais. Se todos gostassem da cor amarela, o mundo seria sem graça, porque a diversidade é o que dá cor à vida. Acho que me empolguei, estou divagando…

O que quero contar aqui é um fato muito divertido que ocorreu numa das repúblicas em que morei, dividindo a casa com os meninos da engenharia e da agronomia – o meu curso era Direito. Nosso endereço era na Zona 7, perto da UEM – rua Aristides Lobo, número 191.
Pois é, num daqueles períodos tivemos uma senhora que atendia nossa casa. Estava com a provável idade de nossas mães e seu nome era dona Esmeralda. Ela cuidava bem da gente. Só havia um probleminha – era muito boemia e bastante chegada na “mardita”. Nos domingos nosso cardápio invariavelmente era frango, assado na chamada “televisão de cachorro.”
Havíamos combinado que, naquele dia da semana, bastaria ela passar em casa apenas para requentar o prato principal e fazer um arroz e uma salada qualquer. Era naquele dia que ela vinha direto das gandaias. As quatro ou cinco horas da manhã começava com a bateção de panelas e, como se não bastasse, com seu radinho portátil tocando musicas de sofrência. Meu quarto era ao lado da cozinha. Já estávamos acostumados com aquilo e não nos incomodava mais. Numa daquelas madrugadas de domingo, porém, sua noite e sua sofrência não deve ter sido das melhores (ou das piores, sabe-se lá). O fato é que estava bebinha, bebinha… Só depois que tinha acionado o botão do gás do forno é que se deu conta que não sabia onde estava a caixa de fósforos. Foi à sua procura. E o gás ligado… Quando finalmente encontrou o bendito fósforo enfiou sua cara no forno, para enxergar melhor o ponto de saída do butano e, - desgraçadamente - acendeu o fósforo - BOOOMM‼ Frango queimado e dona Esmeralda com o rosto e o cabelo sapecados. Naquela época ainda não havia as UPAS, mas a levamos a um pronto socorro, que ficava na avenida São Paulo. Eu tinha um fusquinha, que serviu como sua ambulância. Eu e um amigo da agronomia e ela estendida no banco de trás. E gritando… gritando muito: DOROTHEU NÃO ME DEIXA MORRER! DOMINGOS NÃO ME DEIXA MORRER! NÃO PEGUEI MEU RÁDIO. CUIDEM DELE! CUIDEM DELE! Só por Deus! Felizmente não foi nada de grave, depois do atendimento médico passamos numa farmácia e compramos dois tubos de pomada Nebacetin e ficou tudo bem.
Na semana seguinte ela estava lá de novo, mas se recusou veementemente a voltar a usar o forno do fogão. Gato escaldado…
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