"C`EST LA VIE..."
Não quero ocupar este espaço para fazer análise psicológica ou terapia emocional, mas é fato que nesta vida todos nós passamos por tempos bons e tempos não tão bons assim. Anos piores e anos melhores. “C`est la vie”.
Trilhei por ambos, mas há um deles que procuro esquecer. Foi nele que, num período de menos de seis meses, fui diagnosticado com um câncer; a mulher foi embora; parei de trabalhar; desliguei-me de minha cadeira na academia municipal de letras; afastei-me de certas instituições filosóficas à qual pertencia; o cachorro morreu e, se tivesse um papagaio, ele com certeza também teria parado de falar. Um verdadeiro tsunami! O urubu não só sobrevoou minha cabeça; fez seu ninho nela. Não tive resistência para amortecer tamanhos impactos e, sozinho, mudei-me para um apartamento mobiliado que tínhamos em Curitiba, que era usado basicamente como ponto de apoio para meus deslocamentos e viagens a trabalho. Era advogado e, com ou sem modéstia – falsa ou verdadeira - era um bom profissional.
Recusei-me a fazer radioterapia e quimioterapia e foi naquela cidade que passei minha “convalescência”, que perdurou por quase três anos. Não falarei sobre eles aqui, porque ocupam muitas temporadas e episódios, - igual às séries cinematográficas – dignos de maratonar. Vou falar apenas da primeira temporada (T.1):
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Aos pouco, o pequeno patrimônio que havia auferido na advocacia dilapidou-se e praticamente perdi contato com a família. Como já tinha predisposição genética, plagiando Vicente Celestino, “tornei-me um ébrio…”. Como se não bastasse, fui laçado pela depressão profunda. Virei um verdadeiro “zumbi” me alimentando muito mal – não sentia nenhuma fome.
Foi naquela ocasião que, andando a esmo, como sempre fazia, passei a prestar atenção em determinado imóvel, uma mansão antiga que estava à venda. No seu quintal havia um enorme pitbull, com jeito de ser cão de guarda alugado por empresa. Seus potes para ração e água ficavam próximos às grades do portão e estavam em estado lastimável. A água esverdeada e o da ração vazio. Com muito medo e tomando bastante cuidado, enfiei a mão pela grade e consegui pegar a vasilha com água. Como havia um bar na vizinhança (sempre tem um) fui até lá e troquei a água. Com a mesma cautela, coloquei o recipiente no mesmo lugar. Não foi surpresa vê-lo bebendo-a como bêbado de ressaca (conhecimento de causa…). Vez ou outra, mesmo sem vontade de comer comprava uma ou outra marmitex, que acabavam se acumulando na geladeira. Fui até o apartamento, peguei um pedaço de salsicha que havia ali e uma delas e levei-a para ele. Joguei a salsicha no fundo do quintal e, enquanto foi em busca dela, coloquei a comida na sua vasilha.
A partir daquele dia passei a ocupar-me com a troca da água e a alimentação dele. Fazia isso duas vezes por dia, no início das manhãs e nos finais das tardes. Após algum tempo ele se acostumou comigo e, cuidar dele passou a ser uma tarefa que fez com que minha vida voltasse a ter algum sentido. Bendito seja você amigo, por ter ajudado na cura da depressão. Certa feita, quando apanhava seu pote para trocar a água, não sei como, minha mão ficou enroscada na grade do lado de dentro do quintal. Ele aproximou-se dela e pensei “pobre de mim, agora maneta” mas, quão foi minha surpresa vê-lo batendo com sua pesada pata nela – qualquer coisa como: “você é meu amigo”.
Passados uns quatro ou cinco meses, numa das manhãs que fui lá para atendê-lo o portão estava aberto e nem sinal dele. Fiquei num misto de tristeza e alegria. Triste por tornar mais a ver um amigo, e alegre por ele ter saído daquele triste quintal.
Esteja onde estiver, muito obrigado e sê feliz meu amigo de quatro patas …
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