ANDAR COM FÉ EU VOU...

 

 _.·Blog da Tia Alê: CAMINHANDO SOBRE AS ÁGUAS


Paz e Bem!

Religiosidade à parte, tenho cá comigo que essa saudação franciscana é uma das mais belas que há. Tem a mesma grandiosa expressividade do “Salamaleico”, o usado cumprimento muçulmano que sintetiza, numa única palavra, a magnífica e abençoada  frase “Que a Paz Esteja Sobre Vós.”. Não costumo falar sobre fé e muito menos a respeito de religião, por ser este um assunto profundamente pessoal, emocional e geralmente ligado à  identidade e à cultura de cada um. Sou ecumênico e, devo dizer, também discípulo de São Tomé, querendo ver as marcas dos pregos nas mãos de Jesus – “você acreditou porque me viu! Felizes os que não viram e acreditarão” (Jo 20,24-29).  Tenho convicção de que sucederia comigo o mesmo que aconteceu com o pobre são Pedro,  na sua vã tentativa de caminhar sobre as águas e quase morrer afogado – “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mateus 14:31).

 Sincretismo Religioso

  Circunstancialmente, meu dentista é muçulmano, meu psiquiatra é evangélico de igreja tradicionalista e meu geriatra é ateu. Como se fosse pouco, minha psicóloga tem na parede de seu consultório, lado a lado, um quadro com a imagem de Freud, e outro com a figura de um lindo machado de duas lâminas, a arma do      orixá Xangô.  Não precisa dizer mais nada…  Êtha, viva o sincretismo religioso! A Unidade na Diversidade! Não é o hábito que faz o monge e nem o rótulo que faz o remédio. Com o primeiro troco ideias sobre o grande Saladino (liderança na luta contra os cruzados) e o Islamismo; com o segundo, aprendo coisa ou outra sobre a magia do Livro Sagrado; e, com relação ao terceiro, pelo que verbaliza de suas ideias e princípios, vejo nele um ateu virtuoso. Com a psicóloga só houve um pequeno probleminha – ela pediu que eu passasse a tomar banho de umas dez ervas nos dias que tivesse consulta com ela. Farei. Uma ajudinha a mais nunca é demais… 

 

 Cadeira De Rodas Desenho Vetorial Ilustração do Vetor - Ilustração de  acesso, inabilidade: 156915702

Talvez o que tenha me inspirado a escrever sobre esse assunto tenha sido um fato que ocorreu hoje pela manhã. Tenho uma cadeira de rodas que parece sentir uma atração fatal por mim, e era nela que estava quando lia e tomava sol no quintal, próximo ao portão da rua. Tem coisa pior do que estar em cadeira de rodas? Sim, tem. É ser cadeirante e vendedor de vassouras! Não é para enxertar o texto, não. Estou falando sério. Trata-se de um “sinhozinho” (não no sentido pejorativo) que volta e meia passa na minha rua. Passou hoje. Acredite se quiser, a cadeira dele não é elétrica – é mecânica – e ele carrega nela uma meia dúzia de vassouras e rodos para limpeza. Sol a pino, quase trinta graus na sombra, e ele, quando a força de seus braços não é suficiente para movê-la, ajuda com os pés. Cena deprimente. Detalhe – ele carrega nela também uma surrada bíblia sagrada. Talvez através dela encontre um sentido para uma vida tão miserável (desculpe-me pela expressão), dando-lhe um sentido dentro de uma visão maior da existência humana e do Divino. Tenho comigo que cada tradição religiosa oferece uma perspectiva diferente sobre por que sofremos e como lidar com o sofrimento. Assim, no cristianismo o sofrimento é visto como uma prova de fé, uma forma de purificação espiritual ou até mesmo um caminho para a redenção; para o budismo a solução para o sofrimento é seguir o Caminho Óctuplo, que leva à iluminação e ao Nirvana, onde a dor cessa; para o islamismo é um teste de paciência e fé, enviado por Alá; no hinduísmo, o sofrimento é  frequentemente explicado pelo conceito de karma – as ações de vidas passadas influenciam as experiências atuais; para o judaísmo ele é visto como um meio de correção e aprendizado, muitas vezes associado à ideia de que Deus tem um propósito para cada dor. E por aí vai... Cada religião propõe uma explicação diferente, mas todas concordam que o sofrimento não é um acaso: ele tem um propósito, seja para ensinar, purificar, testar ou libertar. Em síntese: o sentido que se dá ao sofrimento depende da fé e da perspectiva de cada um. Uma última coisa: quando achar que sua vida não está às mil maravilhas, lembre-se do cadeirante vendedor de vassouras com a bíblia dele… Isso pode nos ajudar e valorizar o que temos… 

Vendedor de vassouras tem mercadoria furtada enquanto utilizava o banheiro  - OBemdito

 

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