Hoje quero falar sobre um fato incomum,
triste, deplorável, bizarro, lastimoso e mais uma meia dúzia de adjetivos no
mesmo sentido, que tive a infelicidade de presenciar na minha juventude. Não
gosto de relembrar situações como aquela, mas o farei aqui porque se não fui o
protagonista, fui um dos coadjuvantes nela. Acho que, mesmo não apreciando o realismo
psicológico do dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, com certeza caberia ali o aforismo e bordão
usado por ele: “A Vida Como Ela É”.
Foi o seguinte: quando recém-formado – na década de 80 - advoguei em algumas ações em que a Protetora de Animais de Curitiba era parte, pela mantença de animais domésticos em apartamentos residenciais, exsurgindo (olha o juridiquês!) contra as convenções condominiais que tentavam restringir a presença deles nos mesmos. Fiz sustentação oral em umas duas ou três delas e, talvez por isso, o Desembargador presidente de uma das Câmaras Cíveis nomeou-me como interventor naquela entidade, em razão de seus dirigentes estarem cometendo uma série de irregularidades na gestão, que não vêm ao caso aqui. Passei então a ficar em meu escritório pelas manhãs e às tardes naquela ONG (o termo Organização Não Governamental ainda não estava popularizado). Numa segunda feira encontrava-me lá (lembro-me porque era num feriado católico) quando houve uma ligação telefônica denunciando que em determinado bar daquela região havia dois bêbados torturando uma cachorrinha de pequeno porte (pleonasmo!). Como sempre fazíamos naquelas situações, repassamos a informação para a polícia pedindo o apoio de uma viatura. Eu e o veterinário seguimos atrás dela no carro dele. Um dos policiais que atendeu aquela ocorrência já era nosso conhecido. Atendera-nos em outras vezes. Era o cabo Bruno – alto, musculatura de estivador, negro, de poucas palavras e olhar de matador. Daqueles homens que não podem ser contrariados. O bom senso diz que é melhor tê-los como amigos. Quando chegamos ao tal do bar de fato havia dois bêbados numa mesa dos fundos. No colo de um deles estava uma cachorrinha em estado de choque – eles também ficam assim. Continha vários sinais de queimadura recente no corpinho e tremia muito. Os dois bebuns “filósofos” estavam defendendo a tese de que cachorros e rãs eram iguais – tinham insensibilidade à dor. Para tanto queimavam ela com a brasa de cigarro. Os dois idiotas nunca iriam entender que alguns reflexos musculares que a rã tem quando está sendo fritada, seu pequeno cérebro não está mais funcionando e para de processar sensações. Óbvio que se ela ainda estivesse viva, então sim, sentiria dor como qualquer animal, a exemplo do pet em questão. Enquanto o veterinário levava a “cobaia” para seu carro (o nome dele era Hipólito) os policiais trancavam os dois debiloides na “prancha” (jargão no meio criminal para viatura). O cabo voltou-se para mim:
“Dr. o senhor não deve registrar o
B.O. Diga que quando chegou aqui os dois palermas especialistas em medicina da
dor já não se encontravam mais.” “E, por favor nos consiga um isqueiro e alguns
cigarros”. “Hãan? O que vão fazer com os dois?" .”Dar um rolezinho, doutor”. “Sempre tive
curiosidade para saber se elementos bêbados são insensíveis à dor, ou não”. “Sim,
mas pra onde vão leva-los?”. “Melhor não saber, doutor”. “Melhor não saber…” “Olho
por olho, dente por dente”. “O senhor pode olhar na Bíblia, tá lá ….”
A história daquela cachorrinha
continuou. Foi adotada por mim e viveu por treze anos. Ficou traumatizada com o
bicho homem e por muito tempo quando tocavam a campainha do apartamento ela
corria pro quarto e se enfiava embaixo da cama…
Depois de superado aquilo teve uma historinha
de vida bonita… viveu treze anos...
Qualquer hora escrevo mais sobre ela…
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