A MEMÓRIA TÁ INDO EMBORA...
Um dos predicados sobre os quais sempre me orgulhei é o fato de ter memória pretérita. Consigo recordar com detalhes, por exemplo, das lições da minha cartilhinha do antigo segundo ano primário. Vou provar: uma delas dizia respeito à moradia de um menininho que dava vida às ilustrações. Era uma casa no padrão quadrada e muito bonita. Outra lição era a respeito de seu cãozinho de estimação – ilustrada com um bem cuidado buldogue feiozinho. Uma terceira lição narrava um pequeno contratempo ocorrido no encanamento daquela bonita casa, o que forçou nosso personagem a tomar banho de caneca. Uma delas também era ilustrada com o carro do pai dele – um reluzente decave (DKW). Aquela cartilha, por sinal, mostrava situações e ilustrações que estavam muito além da realidade dos alunos daquele misero colégio de periferia. Nossos buldogues estavam mais pra cachorrinha Baleia, da Vidas Secas de Graciliano Ramos. Os banhos de caneca fazia parte do nosso dia-a-dia e se algum dos pais mais “ricos” tivesse carro certamente seria o carrinho puxado a cavalo. Se estivéssemos na década de trinta do século passado com certeza teríamos servido de inspiração para Jorge Amado, com seus Capitães da Areia. Naquela época ocorreu comigo um fato que jamais esquecerei: Eu e um dos coleguinhas de classe éramos muito unidos. Não tínhamos mais de oito anos. Nós dois costumávamos engraxar sapatos nas manhãs de domingo, na pracinha de uma igreja (igreja do Portão). Num certo domingo fazia muito frio e não consegui nenhum cliente. Ele engraxou dois pares. Quando retornávamos para nossas casas paramos numa padaria (o termo confeitaria veio bastante depois) onde – quando ganhávamos algum dinheirinho nas engraxadas – costumávamos comprar uns suculentos biscoitos de polvilho, às vezes levávamos alguns para nossos irmãos. Naquele friorento domingo só ele tinha dinheiro, soma que, trazendo para hoje, não deveria passar de uns cinco ou dez reais. Ele, colocando as cédulas amassadas e algumas moedas em cima do balcão: “tio, tudo isso de biscoito” – “coloca em dois pacotinhos”. Um deles era pra mim…
Sem qualquer espírito de vitimização, fico muito entristecido por estar com pré diagnóstico de doença degenerativa, que por certo vai afetar minha cognitiva, implicando – cedo ou tarde - na perda de memória e no esquecimento de histórias de vida como essa.
Comentários
Postar um comentário