UM NATAL MARCANTE.

No livro da vida todos nós temos alguns capítulos sobre os quais não gostamos de falar. Tenho muitos que são assim e um deles está ligado ao natal, às comemorações natalinas. Ocorreu quando tinha oito anos de idade. Falo sobre ele aqui não com o espírito de vitimização, já que nunca simpatizei com a figura do herói sofredor. Naquela época eu e minha família vivíamos na penúria, próximo à linha da pobreza. Meu pai, com quatro filhos pequenos, ganhava o salário mínimo. Na páscoa o coelhinho nunca encontrava nosso endereço para deixar ovinhos de chocolate. E no natal ocorria o mesmo – o papai noel não descia pela chaminé de nosso fogão à lenha. Achava que ele não deslizava por ali por conta do seu grande saco de presentes. E foi naquele natal que resolvi facilitar as coisas pra ele e realizar meu infantil sonho de consumo – uma bicicletinha. Naquela noite do dia vinte e quatro fiquei até tarde acordado, sentado na escada, com a intenção de chamar a atenção quando ele passasse com a sua rena. Mas não passou por ali. Não fiquei bravo nem ressentido. Apenas frustrado. Mas frustração de criança dura pouco. Passou logo. Até os dez, onze anos continuei acreditando na existência dele, apesar de nunca ter me trazido a sonhada bicicletinha. Entendi o porquê: ela era muito grande para caber no saco de presentes dele. Criança é criança…
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