''ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão."

 

 

Ele costumava almoçar tarde. Estava acabando a refeição quando ouviu o sinal do celular. Era uma mensagem de texto:

“Boa tarde, mano. Estou usando outro celular.  Desculpe-me por incomodar, mas estou precisando de um favor.”

“Como vai? Você não incomoda. Para que servem os irmãos Não quer me ligar?. Meus dedos são meio duros para digitar.”

“Não. Aqui tá um barulho infernal. É que meu cartão de crédito parece ter sido clonado. Eu tinha uns doze mil na conta, além do limite de crédito.  Ocorre que eu tenho um compromisso financeiro que vence hoje. É pouco:  oitocentos reais. Estou aguardando uma ligação do gerente da minha conta. É improvável que ele me ligue hoje.   Pode me ajudar? Acho que até amanhã eu resolvo  isso e lhe devolvo o dinheiro.”

“O problema é que se eu passar o dinheiro pra sua conta ele também pode ficar bloqueado.”

 “Bem pensado. Vamos fazer o seguinte: você pode passar o pix diretamente pra ele. É            do pintor que pintou a casa da praia. Vou mandar a chave pix dele.”

 “Ok. Aguardo…”

“Abelardo? Banco Bradesco?”

“Isso.”

“Em seguida farei a transferência. A propósito, o alvará judicial do inventário, segundo o advogado,  deve sair até sexta-feira. O valor ficou em R$ 118.400,00. Deduzindo as custas processuais e os honorários do perito restará uns cento e dez. Encontro-lhe nesse telefone para falarmos a respeito? ”

“Não. Esse celular não é meu. O meu foi roubado quinta-feira passada. Semana difícil. Façamos o seguinte, eu volto a fazer contato contigo amanhã ou na quarta.”

 No outro dia, por volta da mesma hora, nova mensagem de texto:

“E aí mano? Novidades sobre o inventário?”

“Não consegui falar com o advogado. Deixei mensagem pedindo para ele me ligar. E você? Conseguiu resolver a situação da conta?”

“O Banco me pediu um prazo de 3 dias.”

“Ok. A gente vai se falando.”

Na quarta-feira mais duas mensagens. Uma às  10 da manhã, a outra às quatro da tarde; com o mesmo teor.

 Nenhuma delas foi respondida.

Na quinta-feira às 8 da manhã outra mensagem de texto:

“Bom dia. Você não respondeu minhas mensagens de ontem. Conseguiu falar com o advogado?”

“Bom dia. Ontem foi um dia agitado. Quando as vi já era noite. Sim, falei com ele no  final do dia. Tenho duas notícias, uma boa a outra ruim. A boa é que o Juiz assinou o alvará e que o valor dele é mesmo de R$ 118.400,00. A ruim é que para a sua liberação devem ser pagos os honorários do perito e as custas processuais, no valor  de R$ 9.800,00 (R$. 4.900,00 para cada um). Resumindo,  restará R$ 108.600,00, ou seja: R$ 54.300,00 para cada. Você pode enviar um pix dos R$ 4.900,00 para mim ou diretamente para o advogado.”

“Entendi. O problema é que com esses rolos na minha conta bancária momentaneamente  eu não tenho como arcar com essa despesa. Será que você não poderia pagar a minha parte? Assim que o dinheiro da minha cair na minha conta em outro Banco imediatamente eu lhe devolvo.”

“Infelizmente não tenho, irmão. Vou usar meu fundo de reserva-poupança para pagar a minha parte. Eu lhe emprestei os R$ 800,00 sem pestanejar. Confio em você. Façamos o seguinte: vamos aguardar que você regularize a situação de sua conta. Dois ou três dias a mais  não farão diferença.”

“Tá bom. Fazer o quê…”

Na quinta-feira, antes das 11hs nova mensagem:

“Bom dia, Mano. Não dormi essa noite. Ansiedade. Estive pensando: será que o advogado não me faria esse empréstimo relâmpago? O gerente do Banco voltou a telefonar. Disse que precisa de mais tempo para restituir meu crédito e desbloquear o dinheiro.”

“Acho pouco provável que o advogado queira se envolver. Não se trata dos honorários dele.

São os do perito.”

Ainda na quinta-feira, pela parte da tarde, outro contato.

“Falei com um agiota. Ele só empresta dinheiro com prazo mínimo de 30 dias. Falou que vai cobrar juros de quinze por cento ao mês.”

“ Òtimo. Acho que é uma boa opção. Os outros oitocentos que lhe emprestei você paga depois. Preciso que você me confirme assim que fizer o empréstimo, pois tenho que agendar com o advogado para irmos ao Fórum amanhã, senão só na segunda”. Outra coisa, prefere  passar o pix para mim ou para o advogado?”

“ A decisão é sua. Confio em você…”

“Ótimo, na sequencia lhe passo a chave do meu pix”

“Assim que transferir o dinheiro lhe aviso.”

Ás nove e meia da manhã de sexta mensagem:

“Acabei de fazer a transferência dos R$ 4.900,00”

“Ótimo. Vou combinar com o advogado um horário para irmos ao Fórum.”

No meio da tarde outra troca de mensagens:

“Deu certo?. O dinheiro já caiu na  minha conta?”

“Não. E nem vai cair. Você perdeu, "boy" . Faltou sorte. Sou delegado de polícia. Vocês capturaram a foto do perfil e os contatos de meu irmão no whatsapp, que por sinal morreu faz dois anos. Ele sempre me chamava de mano. Ele nunca esteve em Brasília. Era de São Paulo. Vocês nunca telefonaram - sempre se comunicavam por mensagens - por certo com medo do não reconhecimento de voz. Outra coisa, estão usando DDD 061 – Brasília. Com certeza estão no complexo penitenciário da papuda. Não existe agiota. Também com certeza foi a facção que determinou que alguém de fora presidio passasse o pix para minha conta. É claro que não preciso dizer que não existe nenhum alvará. C`est la vie… Alguns dias a gente ganha; outros a gente perde.”                          

Bloqueou o contato, pegou sua arma,  seu distintivo e foi trabalhar pensando no novo saldo em sua conta corrente.

 

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