Um pequeno conto: A GARÇA AZUL E A PIPOQUEIRA.
I. Ela estava ali havia muitos, muitos anos. Lembrava-se de quando tinha chegado, ainda filhote. Parece que chegara a voar um dia. Era uma lembrança distante. Mas agora não importava. Este era o seu mundo. Não reclamava. O viveiro era de um tamanho razoável. Tinha ainda uma abertura para um microbosque, com dois pés de árvores. Sempre vivera só, ali. Sentia que sua idade era avançada para sua espécie. Talvez quinze, vinte anos pelo calendário humano. Precisava conversar sobre isso com Amélia. Ela sua amiga havia tantos anos e nunca tinham se falado a respeito. E tinham tempo. O dia todo ela estava lá com seu carrinho de pipoca. Separadas apenas por uma grande tela de arame grosso, mas com muitas coisas em comum. Ambas morando sozinhas, ambas com idade avançada. Ambas tratadas com menor importância pelas pessoas. Perceberam que conseguiam se comunicar há bastante tempo. Talvez anos. Foi numa fria manhã em que Amélia se aproximou com alguns deliciosos milhos de pipoca e, entre os buracos da tela, acariciou-lhe a cabeça e chamou-a de amiga prisioneira. Agradeceu com um olhar tão fraterno que a pipoqueira pensou ter ouvido um rouco “obrigado”. Pensou estar ficando louca. Chegou a conversar algum tempo sozinha, enquanto fazia suas pipocas, para compreender o que se passara. É óbvio que não conversaram. Apenas se comunicavam. Com o olhar, com o coração, com os movimentos. Conseguiram estabelecer esse contato. Depois daquele dia, Amélia percebeu que conseguia manter essa mesma forma de comunicação com as árvores e com outros bichinhos. Mas, algum tempo depois, tomou muita chuva e contraiu uma pneumonia. Internada num hospital público, ficou muito tempo sem retornar ao seu ganha-pão no carrinho de pipocas e sem voltar ao zoológico. A grande garça ficou preocupada. Não tinha como manifestar essa preocupação a não ser pela tristeza. E ficou triste. Parou de comer. Os veterinários foram chamados às pressas. Era um exemplar raro. Daqueles caros e difíceis de serem adquiridos em outros zoológicos. Ninguém sabia o que tinha ela. Ficou muito doente. Quase um mês depois começou a se recuperar. Naturalmente. Da mesma forma que tinha ficado doente. Então algum funcionário tratador mais observador notara que a ave tinha começado a comer novamente mais ou menos no mesmo dia em que a velhinha da pipoca voltara a trabalhar. Os veterinários logo fizeram sua óbvia analogia humana: eram as sobras de milho de pipoca jogadas pela velha à grande garça que faziam sua complementação alimentar. Mas elas duas sabiam que não era só isso. Saudade é uma coisa muito forte. Mesmo entre gente e bicho.
II. Passado aquele período, houve um dia em que a garça pressentiu que era uma das primeiras vezes em que Amélia estava atrasada depois da doença das duas. Costumava vir empurrando aquele carrinho bem mais cedo. Será que naquele dia não viria ? Só faltava nas segundas-feiras. E o zoológico estava aberto, portanto não devia ser segunda-feira. Ah ! Olha ela chegando.
- Bom dia, minha amiga gente. Pensei que não viesse hoje.
- Oi, pássaro grande querido. Atrasei um pouquinho. O dono do quartinho passou lá. Vou ter que mudar na próxima semana.
- Nossa ! Assim… de uma hora para outra ?
- É, no nosso mundo as coisas são assim.
- Veja, minha boa amiga. Pensando por esse lado, eu sou mais feliz do que você. Estou aqui, tenho um cantinho só meu, comida todos os dias, as crianças parecem gostar de mim. E um ou outro adulto até conversa comigo… como é o seu caso.
- Conversam mesmo ? Não é só comigo essa loucura ?
- Não. Não é nenhuma maluquice. As crianças bem pequenas conversam e conversam muito. E ouvem também. Até ficam bravas porque seus pais perderam essa capacidade. Quanto aos adultos, um ou outro consegue se comunicar. Mas falam muito e não ouvem nada. Diferentes de você.
Alguns dias depois dessa “conversa” entre as duas, Amélia empurrava seu carrinho, sem muita visão da rua, quando foi atropelada por um ônibus na frente do portão do zoológico, a poucos metros do viveiro da grande garça. Nem tratadores nem veterinários conseguiram explicar o que houve em seguida. O pássaro começou a correr e a debater-se com violência contra as telas. Quando finalmente um dos tratadores chegou ao local, ela já estava muito machucada. Alguns dizem que teria ficado traumatizada e chocada em razão de parte do carrinho de pipoca ter sido atirado contra as telas com muita violência e com ruído muito forte.
Talvez tenha sido isso. Mas o fato é que naquela mesma tarde, apesar do atendimento intensivo de uma equipe de veterinários, aquela ave rara reaprendeu a voar e alçou um voo muito, muito alto em destino a um Mundo tão azul quanto ela. Até hoje algumas pessoas ainda comentam que num canto daquele zoológico viveu uma garça azul que conversava com uma velhinha vendedora de pipocas. Isso já faz muito, muito tempo…
Comentários
Postar um comentário