SEU FININHO.
Na década de oitenta casei-me com uma farmacêutica muito bonita e muito inteligente. Era recém-formado no curso de Direito, mas até então meu projeto de vida não incluía advocacia. Trabalhava num Banco e pretendia seguir carreira ali. Na época ocupava o cargo de Analista de Métodos Pleno. Mas aí, na noite de um determinado domingo tomei uma decisão que daria outro rumo à minha vida: virar advogado. Na segunda feira entreguei minha carta de demissão, paguei o aviso prévio e não fui mais trabalhar naquele Banco.
Mas, depois daquela decisão repentina, descobri que faltava um ingrediente: aprender a prática da advocacia. Tornei-me então estagiário num escritório de médio porte, com um salário irrisório, com direito a enfrentar filas em Bancos para efetuar o pagamento dos carnês do patrão. Estagiário é estagiário. Em qualquer área.
E aí (N…)foi à luta. Alguém tinha que manter a casa. Abrimos uma pequena farmácia num Bairro distante. Trocamos nosso carro por um fusca 66, vendemos o telefone e cortamos qualquer despesa supérflua. Eu, já acostumado com esse lado da vida, não estranhei a alteração de padrão. Ela, vindo de um berço materialmente estável, demonstrou ser uma verdadeira heroína.
Foi quando compramos uma minúscula farmácia e foi quando também surgiu a figura de seu Fininho. Ele fazia a faxina do local em troca de um pequeno espaço para sua banquinha de jogo de bicho. Naquela época, jogo de bicho era só jogo de bicho. Uma coisa inocente. (N…), com dó do velhinho de mais de oitenta anos, concordou com sua permanência. Ele tinha miopia crônica, uma alegria irradiante, muito feliz com a vida, bem informado sobre o Bairro e paquerador…. Muito paquerador.
Dona Belinha, sua mulher, também já beirava a mesma idade. Com sua bengalinha possante era o ciúme em pessoa. Não descuidava dos cansados olhos caçadores de seu velho marido. Conhecia-o bem. Aparecia na farmácia três ou quatro vezes por dia, a pretexto de levar almoço, seus remédios para asma, sua blusa… Puro policiamento ostensivo.
O ritmo de vida dos dois e suas brigas por ciúmes eram uma distração para os atarefados dias de (N…). Até que, numa sexta-feira seu Fininho quase quebrou a Banca do pobre bicheiro. Juntou todo o dinheiro de sua aposentadoria e apostou todas as fichas num bicho com que sonhara. Acertou na cabeça. E velhinho com muito dinheiro no bolso é um perigo. Ele não foi exceção. Sumiu por uns três dias e só foi reencontrado na praia em Guaratuba, com os olhinhos míopes brilhando muito.
Ninguém nunca soube muito bem o que ele andou fazendo por lá. Jurava que fora pagar uma promessa para Iemanjá. Mas explicar para dona Belinha que Iemanjá não era uma moça em carne e osso demorou muito.
Até a pobre (N…) teve que entrar na história. Arrumou uns quadros da rainha dos mares e os levou para ela ver. Foi pior. Olhou para um dos quadros, olhou para (N…) e disparou: “É igualzinha à senhora.” “ Agora sei porquê aquele desocupado imprestável não tira os pés dessa farmácia...”
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