“YO NO CREO EM LAS BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, HAY."

 

 

 

 

     Profeta e Tião Mascate viviam aprontando. Um dia comeram um frango assado na barbearia ao ar livre e jogaram os restos perto dali, quase na frente da cerca de dona Santinha. Ela era a carola-mor  da igrejinha. Padre Zico, espírito esclarecido, aturava-a como também suportava suas outras vinte companheiras de beatice.

     Mas, apesar de carola, sua fé era frágil. Costumava andar com um pequeno pé de arruda atrás da orelha e mantinha em seu quintal um canteiro com a planta  “comigo ninguém pode”.   Vendo aqueles ossos de frango, logo ficou apavorada, dizendo para todo mundo que tinham feito macumba em seu portão. Tião Mascate, um empreendedor arrojado,  viu ali uma grande oportunidade de auferir algum lucro com aquela história.   Não costumava perder chances para aplicar seus pequenos golpes.

     Logo se colocou à disposição de dona Santinha para fazer um “trabalho  de limpeza”  em seu quintal e em sua vida. Precisaria para tanto apenas de alguém para auxiliá-lo naquela missão tão especial e logo foi indicando a mística figura de Profeta.    Na relação das “oferendas” necessárias para a execução daquela tarefa tão peculiar, pediu  três garrafas de cachaça, daquelas mais caras. À época da marca “Oncinha”, que era das melhores. Algumas velas de diversas cores e alguns sapos mortos também foram acrescentados à lista. Como estes anfíbios eram muito difíceis de serem encontrados, substituíram-nos por algumas rãs. Inovaram também num ponto: disseram que seria mais proveitoso para a obtenção de um resultado espiritual imediato se as rãs estivessem fritas e  bem passadas.

     O “trabalho” seria feito na próxima sexta-feira. A vila inteira ficou sabendo. Até padre Zico,  que – como sempre naquelas situações inusitadas – preferia não dar sua opinião. Com sua sabedoria e experiência de sacerdócio preferia ficar longe daqueles sincretismos religiosos.

    Não vou dizer que sou o “fio da véia ” da musica de Luiz Américo, mas minha mãe além de fazer parte das Filhas de Maria, sempre foi benzedeira. Exercia as duas funções com o mesmo zelo (o padre fazia “olho grosso”). Talvez por isso, no decorrer daquela fatídica semana vivia dizendo para ela mesma: “Esses dois tão mexendo com as coisas do lado de lá, vai acabar em bobagem.”

     Chegado o dia, no início da tarde começaram a beber “Oncinha”.  Segundo Profeta, para se preparem espiritualmente. Dona Santinha teve que entrar com mais duas garrafas da mesma. Disseram que, na previsão inicial dos ingredientes pedidos  haviam cometido um sério e imperdoável  erro de cálculo – não levaram em conta o consumo necessário na fase da “preparação”.

     No início da noite começaram o ritual, vestidos numas camisolonas brancas que ninguém sabia de onde tiraram. Talvez das mercadorias que Tião vendia. Os dois já bêbados pediram então os “sapos”, e dona Santinha, prestativa, logo apareceu com uma bandeja de suculentas rãs, douradas de tão fritas.

     A mãe, para nossa surpresa, nos enfiou dentro de casa e ficou na janela. Quando viu as velas coloridas serem acesas por Profeta, comentou num sussurro de voz que quase não ouvimos:  “O idiota tá acendendo as velas com a mão errada e do lado que o sol se põe.” Calmamente, com os olhos serenos mas estranhamente distantes, mandou minha irmão mais velha ir buscar o padre Zico. “E diga para ele trazer bastante água benta. Vai precisar de muita”.

     A partir dali, ninguém soube bem o que aconteceu. Primeiro Profeta e Tião começaram a ficar muito pálidos e, para o susto da curiosa plateia, na sequencia caíram inertes no chão, num mesmo momento. Todo mundo debandou num estalar de dedos. Só ficaram os dois lá caídos, com a bandeja de rãs já pela metade e várias garrafas de cachaça vazias ao lado.

     Minha mãe então rapidamente agarrou minha mão. “Chegou a hora de você virar gente grande. Enquanto o padre não chegar, o negócio é com nós dois.” … Depois disso não me lembro de mais nada. Afinal já faz mais de meio século.

       Quando padre Zico chegou, olhou a cena, viu Profeta e Tião Mascate já sentados no chão babando e balbuciando palavras sem qualquer sentido. Suas folgadas camisolas brancas estavam manchadas de pinga,  com uma ou outra perninha de rã fazendo as vezes de broche. Ele apenas balançou a cabeça em sinal de desaprovação.

     Repito, foi tudo muito rápido. Depois o padre levou com ele aquele monte de velas e minha mãe varreu bem o local. Certas notícias correm com a rapidez de um pavio de pólvora embebido em gasolina aceso. Aquela não foi exceção. Lembro-me que o bondoso padre dava a maior bronca em quem falava o que não era para ser falado sobre aquele curioso episódio. Com um raciocínio muito desenvolvido, acrescentava  àqueles pitos que Tião e Profeta haviam passado mal apenas porque beberam com o  estômago  vazio  e comeram umas rãs aparentemente estragadas. Para saciar os mais curiosos  dizia ainda que dona … e seu filho, num gesto de verdadeira caridade cristã, foram socorrê-los enquanto ele não chegava.

      A mãe naquela época me proibiu,  sob pena de matar saudades da varinha de marmelo,   de falar sobre o assunto com qualquer pessoa (tá loco! – aquela varinha era mágica, fazia milagres…). Para escrever esta crônica, passado todo esse tempo,  conversei com ela antes.

     E quando alguém vier me perguntar alguma coisa a respeito, depois de tê-la lido, já tenho a reposta na ponta da língua: “Yo no creo em las brujas, pero que las hay, hay.”,

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