UM AMIGO CHAMADO FOLGADO.
Pela metade da década de 70, recém egresso de um Seminário Católico vim para Maringá atraído pela UEM. Ainda não havia completado dezoito anos e a cidade era balzaquiana, com meia dúzia de prédios, Fui morar na pensão para estudantes da dona Maria, que ficava na Rua Néo Martins, ao lado do antigo prédio da Companhia Telefônica.
Além de nós, também era “pensionista” lá um morador ímpar: um cão vira lata, que atendia por ‘”Folgado”. Apenas “hospedava-se” como nós e, por óbvio, não tinha dono. Aparecia na hora das refeições para esperar as sobras. Vez ou outra, quando estava muito frio, ficava também para dormir. Entrava sem a menor cerimônia no primeiro quarto que estivesse aberto, se enfiava embaixo do beliche mais próximo e não havia vassoura corajosa o suficiente para que o fizesse sair dali antes de amanhecer.
Estudante conquista novas amizades com muita facilidade. E ele abusava daquela camaradagem. Na hora da comida, fazia cara de faminto; nos dias frios, de coitado; quando queria um chamego e atenção, cara de abandono. Mas logo fomos percebendo que Folgado tinha outras particularidades. No almoço era ele quem dava sua abalizada opinião sobre as habilidades da cozinheira do dia. Quando começava a uivar antes de servida a refeição, era um mau presságio sobre o cardápio. O fogão e as panelas não estavam sendo tratados com carinho naquele dia. Aliás, em tais ocasiões nem ele próprio comia, como bom gourmet que era . Dava o exemplo! Por outro lado, quando Folgado se punha deitado no beiral da porta da cozinha lá pelas nove da manhã, sabíamos que o prato seria especial. Dia em que a dona Maria em pessoa estaria à frente do fogão.
Costumávamos reservar as tardes dos sábados para jogar futebol de salão, que inevitavelmente era seguido por uma ou duas cervejas e alguns tira gosto irmanamente divididos entre nós no saudoso Bar Império. Nunca deixávamos chegar ao terceiro copo. Tínhamos um forte “código de honra” quanto ao álcool e o tamanho de nossos bolsos era pequeno. Folgado ia junto e ficava deitado na calçada, esperando a sobra de algum petisco.
Certa feita seguiu um de nós até os blocos da UEM. Aprendeu o caminho e gostou. Acabavam-se as aulas e lá estava ele, perambulando pelos corredores, ora esperando um, ora outro de seus “companheiros de pensão”. Na cantina, quando jogávamos baralho ou xadrez , deitava-se aos pés da mesa e ficava acompanhando o agito. Não gostava muito quando o jogo era o de tabuleiro. Era monótono e muito erudito para ele.
Por quase cinco anos foi assim. Um grande amigo, que nos uniu e parecia saber que precisávamos de seu afeto canino para diminuir a distância de nossas famílias, nossas casas de origem e, quiçá para um ou outro sortudo, até de seus bichinhos de estimação.
Folgado decidiu ir embora um pouco antes de nossa colação de grau. Suspeitamos ter sido atropelado no terminal férreo que ficava entre nossa pensão e a Universidade. Nunca tivemos certeza disso. Ainda bem. Talvez ele tenha apenas resolvido mudar-se para outro pensionato, para acompanhar a jornada de outros estudantes.
Afinal, sua missão para conosco já estava cumprida.
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