QUEM É O CANTÔ?!
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Segue aí outra crônica. Espero que tenha paciência para lê-la e que não esteja ocupando espaço na memória de seu whatsApp gratuitamente. Como tenho passado quase o tempo todo fazendo companhia à eterna amante de Hypnos – a cama; ou a uma preguiçosa cadeira de rodas, minha agenda não está muito cheia. Sei que não é o caso da sua. Qualquer coisa é só enviar este escrito diretamente para a lixeira. Vou entender. O que passo a narrar foi inspirado em fato real – alterei o nome de minha mãe pois ela ainda está viva.
Espero que goste.
Vamos lá.
Ela veio para o Paraná em 1957, fugindo da grande seca que assolou o nordeste de nosso país naquele ano. Depois disso passou vinte e dois anos sem visitar sua cidade de origem. Por absoluta falta de condições financeiras. E com sua mãe e irmãos vivos e ainda morando naquele local. A ditadura econômica é a pior das ditaduras. Era um de meus grandes objetivos de vida desde os tempos de criança poder leva-la até lá quando crescesse.
Então aconteceu. Seu primeiro retorno foi emocionante. Começou na viagem. Naquele tempo, passagem de avião era muito cara, ainda além de nossas condições financeiras. Fomos de ônibus. Nós dois. A parte da viagem mais divertida foi do Rio de Janeiro até Salvador. Mais de trinta horas de estrada.
Na rodoviária daquela maravilhosa cidade, que acabara de perder o glamour da Guanabara (para quem não lembra mais, tinha o status de Estado até ser incorporada pelo Rj.), notamos que o movimento na plataforma de embarque era grande. Grande e animado. Uma meia escola de samba se encontrava ali, a todo vapor. Comentamos como o povo era alegre, pois provavelmente estavam fazendo aquela festa toda para se despedir de alguém, que possivelmente seguiria conosco no ônibus. Estávamos parcialmente certos. Realmente a alegria contagiante era fato. Quanto a ser para dar tchau para alguém, não era bem assim não. Logo notamos que o grupo inteiro seguiria viagem conosco. Parece que iam fazer uma apresentação em Salvador.
Porta-bandeira, mestre sala, ala das baianas… e mestre Cantô. Com a compleição física de um peso pesado, garganta possante e bravo… muito bravo.
Bastou que o ônibus rodasse alguns quilômetros para sentirmos que a viagem seria difícil, muito difícil. Começaram o ensaio dentro do ônibus. Cachaça correndo solta e o grupo animado. Animado e levando seu trabalho a sério. Mestre Cantô logo se posicionou em lugar estratégico e se pôs a puxar o samba. Insatisfeito com a falta de afinação de seus sambistas cantores, tomou então a fatídica decisão. Convocou os outros passageiros para cantar com eles. E quem era louco de não acatar as instruções daqueles músculos fortes?
Foram muitas horas de cantoria (para piorar a situação o ônibus atrasou bastante!). Dona Aurora não se fez de rogada. Logo se misturou com a ala das baianas e ajudou a reforçar os sambinhas. Sempre foi muito eclética. Cantava no coro da igreja católica, sabia hinos evangélicos e, não se sabe muito bem onde, tinha aprendido ainda uns pontinhos de umbanda. E mostrou serviço. Eu, meio desafinado como sempre, atento ao severo olhar de mestre Cantô, me esforçava (fui o pavor do professor de música nos tempos de Seminário). "A senhora precisa ensinar esse menino soltar a voz, dona”, reiterava ele, ficando impaciente.
Não adiantava. A única parte que eu conseguia cantar com um pouco mais de afinação era quando cantava certo trecho que fazia alusão a um determinado rei Momo, que fora deposto e entrou na bolacha por haver esquecido a letra de um samba. (Tá loco, sô!… Eu, hem!).
Assim chegamos a Salvador. De lá seguimos mais uns quatrocentos quilômetros agreste adentro. Desta feita num ônibus normal. Silencioso. Todo mundo dormindo. Dona Aurora olha para mim e: “Trecho monótono, né filho?” Eu, com as cordas vocais em frangalho e quase sem voz: “Ssusserraa dona Aurrorra, ssusserraa.”
Voltamos a refazer aquela viagem outras vezes nos anos seguintes. Passados alguns anos, quando um curso universitário ajudou a trazer a trazer o bolão branco para nosso lado da mesa, íamos de avião até Salvador e de lá alugávamos carro para prosseguir naquele percurso.
Mas nunca mais foi a mesma coisa. Como dizia dona Aurora… Foram viagens muito monótonas.
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