BANZÉ - A Continuação...

Quando Banzé foi levado pela carrocinha fiquei doente de tanta angustia. Minha aflição continuou no dia seguinte, quando fui para a escola. No início da manhã comecei a vomitar na sala de aula. Aos soluços, consegui explicar à minha professora o que tinha acontecido na tarde anterior. Até hoje acho que ela fez força para não chorar junto. Era uma jovem de ação. Levou-me abraçado até a sala da diretora e disse que precisaria sair por algum tempo. … e que ia me levar junto. Não explicou aonde íamos nem o que íamos fazer. Antes de sair observei que ela folheou rapidamente uma velha lista telefônica na Secretaria e fez alguns apontamentos numa pequena agenda marrom. Já no seu Gordini pediu-me que não chorasse mais, porque estávamos a caminho do Canil Municipal. Não sabia o que era isso e ela limitou-se a dizer que era a “garagem da carrocinha”. Daquele lugar não vou esquecer nunca mais em minha vida. Havia lá pelo menos uns cinquenta cãezinhos. Todos assustados e silenciosos. Dona Maria Cecília entrou naquele local como uma guerreira pronta para o combate, puxando-me pela mão. Levei poucos minutos para ver meu companheiro de aventuras amuado num canto daqueles. Quando me reconheceu, pôs-se a latir com todo o fôlego, esticando-se como podia numa minúscula jaula. Ao sairmos dali, com Banzé em meu colo, perguntei a “dona” Cecília – era assim que a chamávamos – para onde iram todos aqueles simpáticos bichinhos. Ela olhou bem nos meus olhos e após longa pausa respondeu: “Para o céu, meu querido, para o céu!” Talvez naquele momento eu tenha percebido o quanto o homem pode ser cruel com outros seres.
Faço aqui uma pausa na historinha que estou contando para prestar um louvor à recente lei federal (14.228/2021), que proíbe a eliminação de cães e gatos pelos Órgãos de Controle e Zoonoses no País – parece que ela deu o tiro de misericórdia nas famigeradas “Carrocinhas”. A solução para a procriação desordenada deles está nas castrações em massa ou em processos de castração contínua e – muito principalmente na guarda responsável. Construir um mundo onde humanos e animais vivam em harmonia é responsabilidade de todos nós.
Continuando com o que dizia… Vários meses após aquele triste evento, estávamos os dois com nosso carrinho de sorvetes perto do Batel, um dos Bairros elitizados de Curitiba, quando o empregado de uma das mansões o avistou. O grito “é o Lip do Júnior, ele voltou!” ainda hoje me traz lágrimas. Ele não era o Banzé. Era o Lip. Chorei muito, mas não adiantou. Foi levado embora e desta feita para sempre. Ele deve ter chorado também. Nunca mais voltei àquela rua. Até hoje, quando estou dirigindo em Curitiba, prefiro desviar dela. Nunca mais vi o Banzé. Nem o Lip...
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