"O NOME DELE ERA BOB"

 

 

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     Quando algum de meus vira-latas ou gatos de rua partem para o “Mundo Bem Melhor”,  sofro bastante e digo a mim mesmo: “chega!”, “não vou nunca mais ter animal de estimação.”, “este foi o último!”  Mas sou incorrigível, pouco tempo depois outro deles entra em minha vida. Há muitos anos atrás quando recém havia me despedido do Neguinho que  fora para o lado de Lá, apareceu ele.  Como não tinha dono e estava bastante doente o recolhi para ficar uns dias internados  em minha garagem/ UTI. Sarou e gostou da casa.  Os “alguns dias” alcançaram a marca de uns oito anos.

      Todos meus gatos e cães são uns bandidinhos. Espero que não seja por isso que me escolhem para dividir o quintal. Tomara que não seja por afinidade (!) Ele foi o pior de todos eles. Roubava a ração dos outros e vivia arrumando confusão com a ala dos gatos. Um arqui-inimigo do banho pior que o Cascão da turma da Mônica. Era também viciado em bolacha salgada.

       Como todos eles são castrados e moro numa rua muito tranquila e sem muito  trafego de carros, costumo manter o portão aberto por algumas horas do dia. É quando eles costumam sair para “ruar.”  Normalmente ficam fora por uma ou duas horas e quando retornam sempre estão contentes, alegres, felizes e satisfeitos. Ele  costumava abusar daquela benesse demorando mais do que as costumeiras  duas horas para retornar, quando os outros entravam fechava o portão e pouco tempo depois aparecia.  Naquelas ocasiões sempre vinha não se de onde correndo feito louco, perseguido por um pit bull que costumava perambular por aqui e vivia sendo provocado por ele. Na linguagem canina:

- AU! AU! AU! –“Abre! Abre! Abre!”.

Abria e ele entrava igual um foguete e, do fundo do quintal:

- AU! AU! AU! = “Fecha! Fecha! Fecha!”.

Obedecia a sua ordem e o pit bull matador ficava do lado de fora,  babando raiva.

Ele, do lado de dentro e depois de assegurado que estava bem seguro,  regressava ao portão agora fechado:

- AU! AU! AU! = Me segura, me segura, me segura senão eu mato um.

Sossega Bob, não tem ninguém te segurando.

        Certa feita,  saí para caminhar no início de uma manhã e ele me seguiu. Ao passarmos por determinada casa se apaixonou por uma  linda cadelinha marrom  que morava ali e estava no cio. Naquele momento infelizmente o portão eletrônico da garagem foi aberto para a saída do carro e ele não teve dúvida, com a rapidez de um relâmpago entrou no quintal,  para conhece-la mais intimamente. O motorista não percebeu  e acionou a da tecla fechar, com ele do lado de dentro do quintal. Toquei a campainha da casa  várias vezes para avisar sobre o ocorrido, em vão. Não havia mais ninguém em casa. O que não pode ser resolvido, resolvido está. No final daquele dia ele retornou todo exibido,  com uma carinha de recém- casado.  Pelo sim, pelo não, depois daquilo comecei a desviar aquela rua, mas uns dois ou três meses depois, quando voltei a passar por lá vi vários filhotes tão pretinhos quanto ele naquele quintal.

      Aqui perto havia um mercadinho do qual um agradável japonês idoso e  com muita dificuldade para se expressar  através de  nossa língua  era seu proprietário. Como naquele local sempre podia ser  encontradas verduras e frutas frescas, era só o que comprava ali. Mantinha uma continha numa caderneta  por questão de praticidade e uma vez por semana efetuava o pagamento.  Numa daquelas ocasiões percebi que havia o lançamento em minha conta de quatro pacotes de bolachas água e sal das mais caras. Julgando ser um engano dele, reclamei. A resposta:

- “Foi cachôro prêto do dotô que pegôro, né!” . Olhei para as mercadorias que ele mantinha nas prateleiras mais baixas e entendi. Era ali que ele mantinha expostos os pacotes de bolacha. O Bob os furtara.  

        Numa noite ele deitou para dormir e não acordou. Faz uns dois anos. Seu nome era Bob. O querido e inesquecível  Bob. Quando o enterrei coloquei uma bolacha que ele tanto gostava junto. Para ele pagar o barqueiro Mahaf…

 

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