O COLECIONADOR DE BIKES.
Embora minha área de atuação sempre tenha sido o Direito Agrário, desde os primeiros anos de Faculdade tive um forte fascínio pelo Direito Criminal. E por essa razão nunca recusava uma nomeação ou designação para atuar naquela seara como advogado dativo. Era também uma forma que encontrava para efetuar meu “pagamento” do Dízimo, que ao contrário do que muitos pensam, não é uma prática necessariamente associada às Organizações judaicas ou cristãs. A cada dez ações remuneradas procurava fazer uma a título de contribuição social. E foi assim que certa vez atuei no processo de um figura ímpar, que estava preso havia uns vinte dias pelo furto de uma bicicleta. Delito leve e pena severa antes da sentença condenatória.
Obter a liberdade de ladrão de bicicleta ou de ladrão de Banco que roubou um milhão, dá quase o mesmo trabalho. Meus colegas de profissão sabem disso. Ocupei-me quase uma semana com o caso. E descobri na sequencia que meu cliente era cleptomaníaco, com uma cleptomania específica. Não sabia que existia aquela classificação em Medicina Legal. Ele só furtava bicicleta. Outros bens materiais não o atraíam. Seu negócio era bicicleta mesmo. Encontrei na direção daquele feito um Juiz vocacionado, um verdadeiro magistrado, sabedor da função social de sua nobre atividade. Esse fato ocorreu há muitos anos, numa Comarca distante daqui. A audiência prévia foi num final de sexta-feira.
Preocupado em não deixá-lo preso mais um final de semana, usei uma tática desesperada e digamos não muito jurídica. Levei toda sua família logo no começo da tarde para o Fórum. A mãe e um monte de outros parentes dele ali, chorando no corredor do gabinete iguais carpideiras. Coisa de dar dó mesmo! O Juiz, muito experiente e sabedor das manhas de advogado, de sua mesa volta e meia me olhava de soslaio com ar crítico. Eu ali, inocente. Advogado é advogado. De vez em quando tem que fazer teatro. Audiência realizada com a presença do preso, foi-lhe concedida liberdade provisória.
Dispensados meu novo cliente e sua grande e chorosa família, atrasei-me um pouco para sair. Aguardei para agradecer e me desculpar com o magistrado pelo transtorno que provocara ao levar tanta gente para aquele local. Muito simpático, riu. Conversamos um pouco e ali foi o início de uma bonita amizade que perdura até hoje.
Na saída do prédio percebi certo tumulto. O pobre vigilante, muito agitado, reclamava que acabavam de furtar sua bicicleta. Não vira quem foi. Gelei! Olhei para os lados e nem sombra de meu constituinte. Uma semana depois ele passou em meu escritório para assinar um documento. Quando saiu, apressei-me em olhar pela janela. Acabava de dobrar a esquina, usando uma bicicleta que me pareceu recém pintada. Nunca lhe perguntei nada. Sei que tenho sido repetitivo em minhas crônicas, mas insisto: há certas coisas sobre as quais é melhor a gente não ficar sabendo! Contudo, por desencargo de consciência, presenteei aquele vigia com uma antiga bicicleta esportiva que mantinha na garagem e não usava mais. Ele não entendeu o porquê de tanta generosidade, mas aceitou muito agradecido.
Fazer o quê? Coisas da profissão…
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