GATO ESCALDADO TEM MEDO DE ÁGUA FRIA!

 

 

 

 

      Quando era recém-formado fui trabalhar num grande escritório. Inúmeras ações, vários advogados, clientes e as  testemunhas deles, muitas testemunhas… Trabalhávamos em escala para fazer as audiências. Chegávamos do almoço, apanhávamos as pastas agendadas para o dia e do corredor gritávamos o nome da testemunha que nos acompanharia. Saímos disparados para o Fórum. Não dava tempo para “preparar” ninguém. A regra geral era dizer a elas:  “responda tudo o que o juiz perguntar, mas se precisar mentir, não faça;  diga apenas:  “não consigo me lembrar, doutor”. Um pouquinho de óleo de peroba sempre poderia vir a ser útil numa hora daquelas.

        Certa feita,  apanhei minha pasta e berrei do corredor “quem é o seu Pedro?” E lá fomos nós. Naquele dia era ação cível. Qualquer coisa sobre uma indenização por acidente automobilístico. Audiência nervosa: juiz com muito trabalho, advogado inexperiente e testemunha com raciocínio lento.  Observei que, vez ou outra, ele respondia: “Aconteceu sim…, mas faz muito, muito tempo.” “Era eu sim, mas  faz muito, muito tempo.”  “ Imaginei se tratasse de um vício de fala de seu Pedro e não dei importância para aquilo.”

     Concluída a audiência, dei carona até o ponto de ônibus. Vi que estava um pouco preocupado e procurei quebrar o gelo. “Fique tranquilo, seu Pedro.” “Audiência é assim mesmo.” “O senhor foi muito bem.” Ele tirou o boné amarelo, coçou a cabeça e respondeu: “Sei, sei…,  mas doutor, o homem não perguntou nadinha sobre a ação trabalhista do Antônio.” Presenciei um acidente de carro sim e até ajudei a socorrer os feridos, mas isso já faz uns dez anos ou mais. “Nem lembrava mais daquilo.” Aí entendi o “faz muito, muito tempo…” Havia levado o seu Pedro errado naquela audiência.

    Até hoje não sei como é que se saiu o colega de escritório com outro seu Pedro vítima de acidente de carro, frente a um juiz trabalhista. Tem coisas que é bom a gente esquecer, mas com aquele fato aprendi uma grande lição: passei a me dedicar um bom tempo conversando e orientando as testemunhas de meus constituintes antes daquele  ato processual.

E confiro umas três vezes o nome completo delas. “Gato escaldado tem medo de água fria!”

 

 

 

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