ELE DISSE QUE NOSSA SENHORA QUERIA NOS VER (ugh!)

 

 


 Nunca vou poder dizer que não fui feliz na profissão de advogado. Poucos anos depois de formado já trabalhava num grande escritório em Curitiba. Atendíamos então um grupo econômico com interesses em vários Estados da região norte do País. O filho do dono do escritório e eu éramos os responsáveis por aquela Carteira. Havia períodos em que viajávamos muito para Belém, onde passávamos a semana toda e retornávamos num voo da Varig das sextas à tarde. Meu colega era a personificação do advogado. Rosto de Alain Delon, terno George Armani, caneta parker… Teve berço. E mantinha essa tradição. Era um pouco ingênuo e inocente como as pessoas muito boas costumam ser. Aquele era o voo das 17h10m, conhecido como o voo dos garimpeiros porque eles costumavam vir nele.  Aqueles anos foram o auge do garimpo. A grande maioria dos     advogados, executivos, juízes federais e outros profissionais liberais que trabalhavam na região retornavam para o sul no mesmo horário. E ninguém vinha de terno. Voo concorrido e divertido. Mais da metade formados por garimpeiros. Felizes aventureiros, normalmente com sorrisos folhados a ouro e gastando fácil o que ganhavam fácil. As comissárias de bordo mais experientes tinham traquejo suficiente para tirar de letra aquela clientela. Não se faziam de rogadas quando eles inevitavelmente pediam para ajuda-los “amarrar” os cintos, fingindo não saber fazê-lo. Participavam da brincadeira, aceitando os flertes, servindo latinhas de cerveja à vontade e deixando-os felizes com seus sorrisos de quem promete tudo mas que nada dá. Todos ficavam bem e a viagem seguia. Logo aprendi que ali o melhor a fazer era usar a máxima “em Roma como os Romanos”. Antes da volta deixava a barba ficar com dois dias e do próprio hotel já saía de bermudão, sandálias e camiseta. Meu colega não conseguia fazer aquilo. Voltava com o inseparável  uniforme de advogado. Logo começamos a ser conhecidos naqueles voos. Eu, que já percebera qual era as regras do jogo ali, ficava lá atrás bebendo e rindo com eles. Doutor Júnior costumava viajar isolado nos  acentos da frente, cochilando.  Vez ou outra tinha observado em nossas  viagens que ele falava enquanto dormia. Certa sexta-feira o grupo estava bastante alegre. Dando trabalho para as coitadas das comissárias. Quando se cansaram de atormentá-las notaram meu companheiro lá em seu pedestal, falando enquanto dormia. Foi o suficiente. Cochicharam entre eles e dois foram se sentar junto dele. Senti que vinha coisa e rapidamente me fingi de morto. Então aconteceu. Um deles berrou: “O moço aqui tá falando enquanto dorme.” “Disse que viu Nossa Senhora de braços abertos, esperando todos nós lá no céu.”  “Eu não quero mais ficar neste avião.” Pronto! Não precisou mais. Foi um alvoroço. Doutor Júnior acordou assustado, imaginando que o avião estava tendo uma pane e, apavorado, acompanhou o coro. “Eu também não!” Era o que ninguém queria ouvir. Instalou-se o pânico. No primeiro aeroporto o comandante aterrissou. E o pessoal de terra foi rápido: dois carros da polícia federal aguardavam impacientemente os bagunceiros que tinham causado o tumulto, inclusive o doutor Júnior. Ficamos lá naquele fim de mundo. Ele, quatro garimpeiros bêbados e despreocupados com a vida e eu… advogado também com jeitão de garimpeiro tentando soltá-los.  Acabou dando tudo certo, mas dali a algum tempo aquela mesma rota patrocinou o famoso voo cego do comandante Garcez. Para quem não se lembra ele se perdeu na região amazônica numa noite e num voo cego pousou seu avião na copa das árvores. Até hoje penso se realmente Júnior não teria visto Nossa Senhora. Nunca perguntei. Aliás, tem coisas que a gente não pergunta… ainda mais quando se trata do filho do patrão.  

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