"ELE ERA O CARA!""'
Numa conexão de voo no aeroporto de Brasília, comecei a ficar incomodado com o exagerado volume do sistema de som. Esperando passarem as duas horas de atraso de meu avião, lembrei-me de uma ocorrência inusitada pela qual passara certo amigo de Curitiba, que gostava muito de ouvir musicas funk com o som nas alturas. Na verdade, não era meu amigo. Ele não tinha amigos. Só colegas. Era daqueles a quem costumamos chamar de “espaçosos.” Estacionava seu carro nas calçadas destinadas aos pedestres, adorava furar filas…; enfim, com o devido respeito ao espetacular meio campista Gérson, sempre procurava levar vantagem em tudo.
Filho de pais muito ricos, na juventude comprou uma possante camionete e instalou em sua carroceria um sistema de som que podia ser ouvido a um quarteirão de distância. Recheou-a com vários amplificadores e um sem número de alto-falantes. Música para ele e para quem estivesse num raio de mil metros. Quer aprovassem seu duvidoso gosto musical ou não. Saía com aquela escandalosa banda ambulante noite adentro, oferecendo “melodias” gratuitas para quem pensasse em dormir. Volta em meia tirava a cabeça para fora da cabine, na típica atitude “tão vendo eu aqui?”
Mas aí, olhem o que aconteceu com aquele pobre rapaz. Numa de suas visitas à “Loja do Sonzão”, que era especializada na potencialização e ajustes habituais naquela parafernália acústica, tirou o tampão de metal da carroceria e, afastando um ou outro alto falante, enfiou-se lá para verificar um deles, que no seu entender devia estar avariado, pois não estava berrando tão alto quanto devia. O técnico não viu que ele havia entrado ali e fechou o tampão da “caixa acústica” de quatro rodas com ele dentro. E ligou o som em seu volume máximo para testá-lo. Como iam seus gritos desesperados por socorro competir com o funk pesado, que fazia vibrar não apenas seu utilitário mas o prédio inteiro da oficina? Ficou preso lá por quase dez minutos, berrando e “curtindo” seus funks pesadões prediletos. Teve os dois tímpanos estourados com tamanha profundidade que o levou a um quadro de surdez súbita. Com o passar do tempo, como não ouvia os sons da fala, perdeu também a capacidade para se expressar por ela. Mas mesmo assim não aprendeu. Continuou provocando barulho vida afora. Tem gente que é assim mesmo. Os sinais das trombetas dos anjos não lhe dizem nada. Reclamam da situação em que se encontram e dizem ser castigo dos céus. Não sei não. Prefiro acreditar que Deus, em sua infinita perfeição, não esteja preocupado em castigar ninguém. Talvez o tal do castigo seja o princípio da causa e efeito (sexta lei hermética); ação e reação (terceira lei de Newton); ou plantar e colher (Gálatas 6: 7-8).
Ah, a propósito – o nosso amigo teve que aprender o alfabeto por sinais para se comunicar (Libras), e, pasmem que em sua primeira pergunta ao professor, escreveu numa folha de papel: “Quais os sinais que devo usar para dizer: “Sou o cara!". E era.

Mas, com os berros da locutora do aeroporto, saí de meus devaneios e fui chamado pra o embarque…
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