BANZÉ.
No meu entender uma das piores coisas que pode acontecer a um enfermo é quando o médico prescreve TO – Terapia Ocupacional. Significa que o paciente está precisando ocupar a mente. Nem que seja para jogar dama. Com o meu, para escapar, combinei que escreveria uma crônica por dia. É por essa razão que tenho abusado de seu whats enviando também uma diariamente. Se não lê-las vou entender perfeitamente. Neste caso, por favor não faça cerimônias em usar a lixeira. Lá vai a de hoje:
Mais ou menos na mesma época em que João Crente passou por nossa vida, também veio o Banzé. Eu estudava na parte da manhã e vendia sorvete durante a tarde. Esta com nove ou dez anos de idade. Como toda criança, acabava transformando o trabalho numa brincadeira. Era feliz à minha maneira.
Certo dia estava anunciando meus sorvetes com um apito escandaloso quando percebi que um cachorrinho estava me seguindo. Corri e ele correu. Parei e ele parou. Estava me acompanhando mesmo. Assim foi durante toda a tarde. No início da noite, com chuva, cheguei à sorveteria da vila São Jorge para devolver o carrinho e prestar contas das vendas do dia. O pequeno cachorro preto com uma mancha branca na orelha entrou junto. Foi enxotado pelo seu Manuel, português muito bravo, que não admitia meninos descalços nem animais em seu estabelecimento. Na chuva, seguimos os dois para casa no início da penumbra, saltitando pelos campos e ruas desertas que separavam minha casa da sorveteria. Chegando lá foi devidamente apresentado e reconhecido como meu novo amigo. Minha mãe ficou feliz. Sempre ficava feliz quando eu estava feliz. Meu pai rosnou para ele e foi cumprimentado com outro rosnar. Tudo normal.
E os dias foram passando. Minhas irmãs faziam de tudo para chegar de seus serviços mais cedo, para correrem, como crianças que eram, com Banzé em seu encalço. Banzé! Esse era seu novo nome. Um verdadeiro lenitivo para nossas vidas difíceis. Um anjinho de quatro patas que vivia rindo enviado por Alguém lá em cima – alguns cachorros sabem rir! Companheiro de todas as horas. Quando apanhávamos de minha mãe, ele chorava junto. Quando meu pai estava embriagado em suas constantes batalhas para vencer a vida, nosso amiguinho ficava tão apavorado quanto nós. Comigo o xodó era maior, pois foi admitido como meu ajudante. Até sorvete ele aprendeu a chupar – ou lamber. Era doido por picolé de limão. Quase viciado. Até o seu Manuel ele conseguiu cativar – passou a trata-lo como “raio de cachorro!”
BANZÉ VAI PRESO.
Devia ser lá pelas três da tarde. Ainda estava com o carrinho cheio de sorvetes. Vender sorvete com o frio de Curitiba não era das mais lucrativas atividades. Banzé, alegre como sempre, não se afastava muito. Gostava de ir brincando na frente. De repente surgiu aquela visão de terror em forma de gente. Eram dois, com seus laços já armados e correndo em nossa direção. Banzé, apavorado, tentou fugir para baixo do carrinho pedindo proteção, mas não pude fazer nada além de implorar que não o levassem. Choroso, propus até dar todo o sorvete que quisessem em troca de sua liberdade. Não adiantou. Era a terrível carrocinha! Desesperado vi quando o enfiaram ali, em castigo apenas por estar andando solto, irradiando felicidade para os outros.
Com voz embargada pelo choro contido:
- Moço! Moço! O que vai acontecer com ele?
- Precisam pagar uma taxa e retirá-lo do canil da Prefeitura em três dias, senão ele vai virar sabão.
E continua…
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