UM VIRA-LATA NA AUDIÊNCIA.

Seu nome era Bob. E foi o cachorro mais bandidinho, teimoso, ladrão de comida, esperto e inteligente com quem tive a felicidade e o privilégio de conviver por alguns anos.
Olha o jeito peculiar como teve início a nossa amizade. Quando ele ainda era um sem teto, já conhecido por Bob, vez ou outra costumava fazer um “lanchinho” em minha calçada, onde sempre mantinha uma vasilha com água e outra com ração para cachorros e gatos andarilhos.
Certo dia, há uns seis ou sete anos atrás, ele apareceu para a costumeira refeição, mas nem chegou tocar na comida e caiu inerte na calçada, com sangramento nasal.
Estava com a doença do carrapato, mal que pode ser fatal para eles. Ficou vinte dias internado em minha garagem convertida em UTI, sendo medicado durante o dia e durante a noite. Eu era o seu enfermeiro.
Passava o tempo todo prostrado num sofá velho que estava guardado ali à espera do descarte.
Costumo guardar o carro com os vidros abertos. Por aqueles dias, numa determinada segunda feira tinha que atuar numa audiência de extrema importância e saí com muita pressa, sem sequer olhar para aquele sofá.
Pois é, quando muito agitado tentava estacionar nas proximidades do Fórum, voltei-me para trás (nunca consegui manobrar usando apenas os espelhos retrovisores) e adivinhem quem estava no banco de trás? Isto mesmo, ele! Muito bem acomodado e roncando com as quatro patas pro ar. E agora, José?
Não tinha muito que fazer. “Bob, você é um figura, não disponho de tempo suficiente para te levar de volta”. “Vou deixar os vidros abertos para o ar entrar e você não morrer por hipertermia” “Espere-me aqui e não saia daí”.
Iniciada a audiência tudo corria nos conformes, com a porta aberta como deveria estar, um promotor de justiça turrão e um juiz com jeito de paizão.

Como disse, o ato estava transcorrendo normalmente. E poderia ter continuado daquela forma, não tivesse sido interrompido pela súbita entrada no gabinete de um determinado cachorro em correria louca seguido por um pobre vigia muito ofegante e suado; e veio aninhar-se nos meus pés.
Todos ficaram inertes frente àquele inusitado cenário, menos eu, que em vão tentava lembrar o nome do abismo mais profundo do mundo para poder pular lá. “O cão é seu, doutor ?”. “Se for peça para ele desligar o celular se quiser permanecer no recinto”. “Segue o baile”. “Com a palavra o doutor promotor para suas alegações finais...”.

Era mesmo um magistrado que conseguia lidar com qualquer situação imprevista... nem que esta fosse com a inimaginável presença de um vira lata em uma de suas audiências... E alguém que com certeza deveria também gostar muito dos amigos de quatro patas.
E continua...
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