A MINHA EX DEU UM FIM NA BETINHA.

Como estou em período de convalescência
e sem condições físicas de ir até o
barbeiro, é a mãe de meus filhos quem tem feito minha barba e o corte de cabelo. Não existe ex-mulher assim, é um espécime raro. Hoje foi o meu dia de serviço de beleza a domicílio, para ficar bem bonitinho - mas longe de mim a afirmação de que "bonitinho" é o feio quando fica bem arrumadinho. .
Outra coisa, quando alguém usar a expressão “mãe dos meus filhos” ou “pai dos meus filhos”, podem logo saber que é mero eufemismo para dizer que na relação houve ou em breve haverá um divórcio.
Foi o nosso caso e ocorreu há uns treze ou quatorze anos atrás. Sempre fui muito ruim para guardar datas e contar o tempo. Aliás, esse deve ter sido um dos motivos para ele ter ocorrido.
Nunca dei importância a datas festivas, comemorativas ou de aniversários; para lembrar os natalícios de meus filhos tenho que fazer um sobre -humano esforço mental. Sou um pai e fui um marido desnaturado? Não precisa falar. Sou, sei disso. Parte da culpa é dele, do meu Anjo da Guarda, que também é muito esquecido. Bem que ele podia me avisar sobre esses eventos com certa antecedência.
Vejam a situação que me aconteceu há muitos anos atrás: estávamos com menos de ano casados e não me lembrei do aniversário dela. Foi um acontecimento que seria cômico se não fosse “trágico.” Naquele dia logo que acordei desejei um singelo “bom dia”, e sua resposta foi um seco “para você também!”, com um jeitão da temível fala “precisamos discutir nossa relação!" - Deus me livre! Senti que ela parecia ter acordado com o pé esquerdo e logo percebi que aquele seria um dia muito, muito longo e muito, muito difícil.
O Anjo da guarda logo alertou que naquele sábado não era recomendável ficar por perto não. O oxigênio não seria suficiente para os dois. Como ele sempre demonstrou ser muito sensato, prontamente acatei seu aviso e tratei de passar o dia todo fora, me ocupando com pequenos afazeres na área externa do prédio, onde também era o síndico.

Pelo final da tarde tinha mal acabado de entrar no apartamento e o telefone tocou. Atendi. “Boa tarde Dorotheu, aqui é a Jane, por favor passe para a “...” estou ligando só para dar os parabéns pelo aniversário dela.” Então entendi porque tamanho era o seu mau humor. “...” é para você, dona Jane ligando para lhe cumprimentar pelo aniversário” e, baixinho, tapando o fone com a mão – “ela acabou de estragar a surpresa que eu estava preparando para você no jantar!” Não adiantou, não sei por quê não acreditou e passou quase uma semana sem falar comigo.
Esse era eu ontem. Hoje em dia estou bem mudado, bem melhor, com frequência costumo até lembrar a data do meu aniversário e de outras duas ou três pessoas; Ah, sei também de cor e salteado a idade que têm os meus meninos. Vou provar: – vinte e dois e vinte e nove - se não for isso devo ter errado por muito pouco – ninguém consegue mudar tanto de uma hora para outra....
Mas já falei demais sobre nossa vida privada. Todos nós temos capítulos que gostaríamos que não fossem publicados. Vamos mudar de assunto.
Há pouco, quando cortava meu cabelo ela veio com umas falas estranhas: “Estou muito triste”; “Na quinta-feira dei um fim terrível na Betinha e agora estou com um profundo remorso”; “Ela era tão minha amiga”; “Fazia com ela o que queria e nunca reclamou”; “Houve um tempo em que cuidava até de seu guarda-roupa”; “Fiz vários vestidos para ela”;
“Outro dia fui cortar seu cabelo e quase a deixei careca e acho que ela pensou que se tratava de um penteado novo"; “Foi usando ela como cobaia que aprendi aplicar injeção”; “Ela tinha uma enorme paciência para ouvir sobre meus problemas e sempre ficava muda, apenas me escutando – Era muito especial”; “Uma vez fui dar um banho nela e quase matei a coitadinha afogada.” “Era um pouquinho mais nova que eu”; Como pude fazer uma coisa dessas com ela!.”
Comecei a ficar preocupado. Embora ela nunca tivesse tido os menores indícios de uma Serial Killer em potencial, sabe-se lá! Como já disse aqui, as pessoas mudam.Vejam o meu caso.
E ela ali, continuando a falar, com a maior frieza do mundo sobre o fim que tinha dado na pobre Betinha. E usando uma enorme tesoura que insistia em roçar minhas orelhas. Seria muito fácil para ela, “sem querer" fazer em uma delas um buraco grande demais para ser disfarçado com o uso de um brinco. Logo me veio a mente o estado que ficou a orelha - ou o que sobrou dela - do perturbado Van Gogh, aquele holandês que pintava girassóis e era um maravilhoso gênio das cores.

Fiquei apavorado com a hipótese daquilo acontecer comigo, mas procurei não demonstrar medo. “...” calma, pra tudo tem um jeito”. “Eu sou advogado, sei do que estou falando”. “Já se passaram mais de vinte e quatro horas”. “Não tem mais flagrante”. “Vamos fazer o seguinte...”.
Ela abruptamente me interrompeu “Você tá louco, é ?"; “Deve ser por estar usando muitos comprimidos de tarja preta”. “Saiba que a Betinha era uma bonequinha muito querida que eu ganhei quando tinha uns quatro ou cinco aninhos , e que num rompante para fazer uma boa faxina no baú grande na malfadada quinta feira - o dia que passa o lixeiro - por descuido acabei por jogá-la fora, no lixo. “Não acredito que você chegou achar que se tratava de uma pessoa!”.
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“Eu não, tá doida ? Imagina, nem pensar...Eu, hem!
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