O PROFETA.

 

 

 

       Profeta era outro amigo de meu pai. Cabelão branco, barba de cinco anos, sandálias velhas nos pés... Era o barbeiro da rua.

    Atendia sua clientela num banco, embaixo de uma árvore. Também lia a sorte das mulheres. Dos homens limitava-se a cortar o cabelo.

     Ocorre que nessa época a ditadura militar, com dois ou três anos de vida, trouxe para nosso pacato bairro um de seus filhotes. Seu nome era Zecão. Cabo Zecão. Autoridade por força da farda, que diziam não a tirava nem para dormir.

     Não era ingênuo e inocente como os demais moradores do local. Talvez por isso logo ganhou a fama de não ser boa pessoa. E        não  gostava do Profeta. Ninguém sabia o porquê.

     A primeira briga dos dois foi na “barbearia”. embaixo da árvore.  A última foi na paróquia, numa tarde de sábado de bingo.

     Possante sistema de som com dois alto-falantes nas torres da igreja. Músicas intercaladas pela voz do padre com mensagens  e anúncios a seus fiéis.

     Então num descuido na hora do lanche do padre-locutor,  Profeta invadiu o escritório da igreja. Apossou-se do microfone e falou por quase dez minutos para o povo. Longos minutos discorrendo sobre a vida do cabo. Naturalmente só com fatos que não engrandeciam o coitado.

    Mas não se deu por satisfeito. “Eu também li a sorte da mulher dele. Sei que ela é muito amiga do Tião Mascate. Faz muitas compras com ele, pelo menos três vezes por semana. “Etha” moça para gostar das mercadorias do Tião...”.

    Só interrompeu seu discurso com a desesperada chegada de dona Santinha, misto de carola e zeladora da igreja. Mas foi o suficiente para que as coisas voltassem ao normal na vila.

     O pobre cabo mudou-se na semana seguinte. Profeta e Tião, que não eram bobos, sumiram por algum tempo. Reapareceram depois. Profeta ficou ainda mais popular. Aumentou sua clientela, mas as mulheres nunca mais voltaram a ter suas mãos lidas por ele.

     Talvez com medo do serviço paroquial de som.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"A COLÔNIA AZUL"

"ENQUANTO AINDA POSSO ESCREVER"

“Pequenas coisas… grandes abalos”