O PROFETA ERA COMPADRE DO NOÉ DA ARCA.

 

      Profeta, como todo bom profeta, arriscava também uma ou outra profecia. Não era nenhum Nostradamus ou São Malaquias , mas se esforçava. É bem verdade que contava com alguma ajudazinha para esses momentos de “iluminação”. Tinha uma unha encravada mal curada, que sempre doía muito antes de qualquer tempestade.

     E o povo da vila era muito crente em Deus, com um justo e devido respeito principalmente na Semana Santa. Profeta não era lá muito chegado em assuntos Divinos, mas numa sexta-feira santa, já começou o dia com a dita unha atormentando sua vida. Pelo grau da dor, sabia que a tempestade seria no meio da tarde.

    Teve então a malfadada ideia. Mandou Tião Mascate, seu inseparável amigo e cúmplice  para os pequenos golpes, espalhar que tivera uma grande visão: O mundo ia acabar naquele dia, exatamente às três horas da tarde. E acrescentou que Noé daria uma paradinha estratégica com sua Arca Divina na árvore de sua barbearia. Quem estivesse naquele local àquela hora seria salvo.

     Verdade seja dita, era bom no serviço de meteorologia. Lá pela uma da tarde, o tempo começou a mudar para chuva. Nuvens escuras, muito vento e até alguns raios. Foi o suficiente. Logo alguns pecadores começaram a chegar, a pretexto de uma visita de cortesia ao Profeta. A fila de gente para cortar o cabelo aumentando. Vários clientes com ele estranhamente curto.

     Tião Mascate, como sempre estava por perto, acompanhando aquele movimento todo. Daí profeta disparou: “Vamos fazer uma pequena doação para o Noé. Dois contos para quem quiser entrar na grande Arca da Salvação.” Alguns raios mais fortes foram o suficiente para os mais descrentes comparecerem ao caixa.

     São Pedro parecia estar colaborando. Mas, medo é medo. Logo a “barbearia” ficou entupida de gente. Tião Mascate, fiel tesoureiro, fazendo bem seu serviço de cobrança. Duas e meia da tarde, forte tempestade se aproximando e o povo começando a ficar desesperado.

     Então padre Zico começou resolveu intervir. Pegou o velho guarda-chuva e, quase carregado pelo vento,  com sua inseparável batina preta chegou ao local e foi logo gritando do alto de sua autoridade moral: “Quero todo mundo indo para suas casas... AGORA! Menos estes dois bêbados profanos, com quem eu quero ter uma conversinha.”

    O povo desapareceu, obediente como sempre ao grande padre Zico. Tião Mascate nem ouvia, feliz contando as cédulas molhadas da coleta. Profeta, coçando tranquilamente a longa barba, virou-se para o padre e engatou: “Fique tranquilo  seu padre, o mundo não vai acabar hoje não. Há pouco recebi um pombo-correio enviado por Noé, com uma mensagem informando que a Arca tá muito cheia. Ficou de passar aqui no ano que vem.”

     O bondoso padre, todo molhado, falou para ele mesmo: “Olha os amigos que o pobre Noé anda arrumando.” Dizem que, após um bem dado pito nos dois, saiu dali disfarçando uma gostosa risada de mais uma das loucuras do inesquecível malandro Profeta.

 

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