O meu segundo emprego.
Quando ainda não era proibido ao menor trabalhar, tive mais de um emprego. Encontrei patrões extremamente agradáveis, como foi o Vesguinho, da banca de frutas e verduras; mas também outros que eram exploradores e de difícil trato. Com um destes não dei muita sorte. Acho que sorte nenhuma ! Foi numa cantina e durou meses, mas não deixou nenhuma saudade.
Quem tiver saudades de tempos ruins fará o deleite dos psiquiatras. Mas daqueles dias também não ficaram mágoas: acho que apenas um simples sentimento de melancolia, de tristeza. Os fatos que foram marcantes na infância de uma pessoa, tanto os registrados pela alegria, quanto os marcados pela dor, demoram a cair no esquecimento. Principalmente aqueles que causaram sofrimento.
Por todos esses quase cinquenta anos, guardei esta história só para mim, mas espero que ao dividi-la com vocês, possa conseguir esquecê-la de vez. Mas, vou logo alertando, esta é daquelas histórias que, se contadas a um carroceiro, até o burro vai chorar (ou rir). Não sei ! Por favor, tenham paciência para ler.
Estava com meus doze ou treze anos e minha família era extremamente pobre, às raias da penúria. Foi quando aprendi o significado de expressões como “era bom porque era ruim”, “seria melhor se fosse pior”; ou “não há nada tão ruim que não possa piorar.” Para mim piorou. Ôh. se piorou !
Aconteceu assim, tinha um primo que era cabo do exército e me arrumou emprego na cantina existente do quartel onde estava lotado. Era terceirizada e seu dono era um civil. Um ariano, não pelo signo, mas por pertencer aquele grupo étnico. Um sujeito com um enorme corpo, calvo, um sorriso amarelo e forte sotaque alemão. Dizem que a primeira impressão é a que fica. E ficou ! Para um garoto de doze anos foi a que ele devia ser irmão ou primo em primeiro grau da dona Assombração.
Como não bastasse sua assustadora aparência, o pior estava por vir: pregava descaradamente a supremacia racial branca, o racismo e o antissemitismo. Só conseguia enxergar o mundo por esta viseira. Sem dúvida era daquelas pessoas em quem caberia qualquer camisa de força. Não seria necessário nem tomar suas medidas.
Não sou nenhum loiro de olhos azuis e naquela idade era até mais escurinho do que sou hoje. Minha mãe costuma dizer que fui “branqueando” conforme a idade foi avançando. Com certeza o oposto do urubu, que nasce branco e morre preto. Continuando a desbotar assim, quando morrer estarei polaco. Eitha !
Devo dizer que sempre gostei da cor de minha pele. Mas Herr Krauss não gostava muito não. Claro que este não era o seu verdadeiro nome, mas vou usá-lo aqui para preservá-lo – embora ele não merecesse. Sua mulher Frau Krauss, comungava com as mesmas ideias abestalhadas e também passava os dias na cantina. Logo me apelidaram de “Arame”, cognome que certamente tinha a ver com meus cabelos. Como todo garoto moreno no início da década setenta, usava-os no chamativo estilo black power.
Os Krauss, como qualquer alemão falando nossa língua, tinham dificuldade com a pronúncia do “rrr”, por isso falavam “Arrrame”.
Embora inicialmente tivessem dito que meu serviço ali seria apenas lavar louças, varrer o chão e passar pano para tirar a poeira; além de alguns outros pequenos “afazerres.”, para minha triste ilusão não foi o que aconteceu. Logo descobri que os “pequenos afazerres” não eram tão pequenos assim.
Tinha que executar um outro sem número de “tarrrrefas”: passava manteiga em pães, fazia sanduiches, abastecia as vitrines elétricas com salgadinhos. No final de cada dia ainda limpava toda a cantina e o “anexo”. Mas não parava aí. Frequentemente levava os sapatos de Frau no sapateiro, e ainda lavava o carro de Hess nas manhãs dos sábados.
Achou pouco ? Tinha mais, antes de abrirem a cantina, executava uma atividade que não era para qualquer um. Consistia em coar vários litros de café numa velha cafeteira, que parecia cismar em causar choque elétrico toda vez que precisava despejar água fervendo nela, usando uma enorme caneca de alumínio. Cheguei aceitar a triste sina que, se conseguisse me safar de uma morte por queimadura, morreria eletrocutado. ! Minha situação era mais menos como: “se ficar o choque mata; se correr, a água quente também”. (Verdade ! Avisei que esta era uma história de chorar !).
Krauss e Frau não tomavam choque e zombavam dizendo que acontecia comigo porque “ô cafeteirra só dá choque em prrreto.” Cheguei acreditar naquela bizarra teoria. Hoje sei o porquê daquilo. A combinação da água, da caneca de alumínio e um velho conga úmido que usava (naquela cidade predominava o tempo chuvoso), tornavam meu corpo um condutor da corrente elétrica. Eles não sentiam choque porque costumavam usar calçados com sola de borracha, que atuavam como isolantes.
Os ovos cozidos da vitrine costumavam ser confundidos com quibes, de tão escuros que ficavam depois de dois ou três dias expostos ali.
Certa feita derrubei uma enorme bandeja de pastéis quando abastecia uma delas. Krauss me xingou muito, mas não se fez de rogado: catou-os do chão, deu uma boa assoprada para tirar a poeira, e colocou-os à venda assim mesmo.
Os copos e xícaras raramente viam sabão. Eram apenas “batizados” numa bacia com água, que demorava muito para ser trocada, e rapidamente voltavam “limpinhos” para o balcão. Tinha muito movimento de fregueses e os copos eram poucos. Não dava para fazer melhor. Não havia fiscalização sanitária por estar a cantina situada no interior de um quartel. Nenhum fiscal era doido para entrar numa guarnição militar naqueles tempos de ditadura.
Até agora me pergunto se Krauss não teria servido de inspiração para a criação do personagem Sujismundo, que era a junção das palavras Sujo e Imundo. Naquela década foi muito utilizado em filmes de publicidade para televisão, para enfatizar as características de uma pessoa desleixada.
Eu era o próprio barbeiro da Ópera de Sevilha, de Rossini. O Fígaro, aquele que tinha mil e uma utilidades. (Figaro cááá!!á Figaro lááá - Arrrame cááá !, Arrrame lááá !). Se existiu trabalho análogo ao escravo, foi o meu. O casal Krauss parecia desconhecer por completo a existência de uma princesa que assinou determinada carta, lá no final do século XIX.
Seguiram-se os dias, as semanas e os meses. Eu precisava daquele emprego e parecia que eles precisavam do garoto “Arrrame” para espezinhar. Então tudo certo. Agradava as duas margens do rio. Como dizem os advogados, bom para ambas as partes.
Herr tinha um ostentoso cinca “chambord tufão”. No para-brisa traseiro colocou três adesivos com estapafúrdias frases provocativas, que tinham tudo a ver com ele. Uma delas dizia “Quem tem pena é galinha”, a outra, “Morra de Inveja !”, e uma terceira: “Nossa Senhora não, sua !” Para meu tormento eu tinha que lavar aquela “preciosidade” todas as manhãs dos sábados, usando um pequeno balde e longe da torneira. Era um dos meus suplícios. Aí a sorte decidiu me favorecer. O bolão branco começava a voltar para o meu lado.
Numa certa madrugada o pobre Krauss, certamente com muitos steinhaegers na cabeça, saiu para zoar e enroscou seu lindo carro num poste. Perda total do carro e parcial dele. Fraturou as pernas. Só os adesivos saíram ilesos. Não tenho peso de consciência não. Minhas rezas e meus pedidos eram apenas para aquele carro sair da minha vida. As pernas foi obra do destino. Imagino a hilária cena para quem chegou logo em seguida ao local do acidente: o que sobrou do carro e do Krauss e ele ali, com suas pernas quebradas, cacos do para-brisa e os adesivos no colo, com destaque para o que dizia: “Morra de Inveja !” Com certeza naquele estado ele podia causar qualquer sentimento, menos inveja. Deve ter provocado boas risadas nas pessoas que passavam por ali.
Ficou seis semanas em casa, sem aparecer na Cantina. Frau fazia o almoço lá e eu diariamente ia leva-lo para ele numa velha bicicleta com um enorme bagageiro na frente do guidão (era usada quando eu ia fazer compras). Foi por aqueles dias que numa ocasião percebi determinado varal na casa deles, com alguns sacos de pano brancos estendidos para secar. O estranho é que cada um deles tinha três furos. Aí me lembrei que os sacos vazios de açúcar comprados para a Cantina nunca ficavam lá para posteriormente serem usados como panos de chão, como seria o normal. Frau sempre os levava para casa. Hoje sei que os membros da famigerada Ku-Klux-kan (felizmente extinta) usavam esses ridículos sacos na cabeça, por certo pela vergonha de mostrarem o rosto, quando se reuniam para difundir suas amalucadas teorias racistas. Os Krauss deviam... Sei lá ! Há coisas que é melhor a gente não saber.
Eles tinham um filho chamado Zeitem, que era de uma estupidez sem tamanho. Ignorância era sua especialidade. Trabalhava como sub gerente de um Banco e era tão preconceituoso quanto o seu pai. Eu mantinha minha caixa de engraxate num canto da cozinha, porque nas tardes dos sábados, quando a Cantina estava fechada, fazia um “bico”, engraxando os coturnos dos milicos.
Quando passava na Cantina ele sempre me mandava engraxar seus sapatos, mas nunca pagava por aquele serviço e também nunca agradecia. Era um alguém que precisava urgentemente de um alargamento de suas ideias. Tal pai, tal filho. Como ensina a cultura popular: “Em laranjeira nunca dá maçã!”.
Mas vejam o que aconteceu com aquele desventurado moço. Ele era estéril e por isso não podia ter filhos. O casal resolveu então usar a técnica de reprodução assistida, que como sabem, é com a fecundação do óvulo pelo espermatozoide em laboratório e implantado no útero da mulher. O doador do espermatozoide foi selecionado a dedo. Como não podia deixar de ser ele tinha olhos claros, cabelos loiros e, como se já não bastasse, algumas sardas no rosto. Enfim representava a raça ariana em sua linhagem mais pura (eugenia).
Assim foi feito e correu tudo bem. Quer dizer quase tudo bem. Imaginem vocês qual foi o assombro de todos quando olharam para o recém-nascido e viram, não um loirinho com cabelinhos de anjo como era o esperado, mas um neném tão pretinho que, se fosse colocado ao meu lado, eu “escurinho” como sou, facilmente passaria por albino. A clínica de fertilidade havia cometido uma terrível, indesculpável e irrecuperável falha; ao invés usar o espermatozoide do doador ariano usou o de outro, que era um afro-americano...
Não foi o castigo que veio a eles de cavalo. A expressão “Castigo Vem a Cavalo” é do tempo que a condução mais veloz era ele, hoje o correto seria dizer “Castigo Vem de Avião”. Isto para quem acreditar em castigo. Não é o meu caso. Para mim ele não existe, o que existe é uma relação de “Causa-Efeito”, ou a aplicação da inexorável Terceira Lei de Newton, também chamada de “Ação e Reação”.
E continua...
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