O MEU PRIMEIRO GRANDE AMIGO.

Hoje é o dia do amigo. Bonita data para comemorar essa relação fraterna que um indivíduo tem para com o outro. Vinte de julho também é aniversario da chegada do homem à lua. Quando Neil Armstrong pisou naquele satélite natural da terra eu estava com onze anos de idade.
E tinha um amiguinho inseparável, chamado Adilson. Foi também naquele inverno que meu pai saiu para trabalhar em colheitas de café no interior do estado e não retornou mais. Foram dias difíceis para minha família. Adilson, para o meu padrão social, era rico. Seu pai trabalhava como motorista de ônibus e tinha até televisão em casa. Como toda amizade verdadeira, aquela era mágica. Faltam-me palavras para descrevê-la aqui, pois essa relação só é sentida por aqueles felizardos que têm ou que já tiveram um verdadeiro amigo.
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Nos domingos eu limpava, engraxava e lustrava sapatos numa pracinha existente em frente à igreja. Usava uma antológica caixa de engraxates de madeira, com suporte para pendurá-la nas costas. Era nela onde guardava meus “instrumentos de trabalho”: diversas latas de graxas nugget, escovas, bisnagas com tinta ou água e outros objetos. Durante os outros dias da semana vendia sorvetes numa caixa de isopor, usando um escandaloso apito para chamar a clientela.
No Grupo Escolar em que estudávamos não serviam merenda, mas Adilson não me deixava passar fome. Todos os dias trazia em sua lancheira uma guarnição extra. A hora do recreio era por nós a mais esperada. Era o nosso momento para avaliar nossos tesouros. E tínhamos em rígida sociedade de fato, composta por valiosas peças, como um álbum das balas Zequinha ainda incompleto, um vidro quase cheio de bolinhas de gude, vários gibis e ainda dois peões com fieira das melhores. Ele era craque nos jogos de bafo. Tinha esse nome pois o bafo (vento) provocado pelas mãos durante a batida no monte virava as figurinhas. Eu, da minha banda, me saía bem nos jogos com as bolinhas, que consistiam em um círculo desenhado no chão, onde os jogadores deviam, com um impulso do polegar, jogar a bolinha.

Era uma inexplicável cumplicidade que existia entre nós dois. Morríamos de ciúmes um do outro. Queríamos atenção exclusiva. Sua mãe costumava dar-lhe pequenas mesadas, normalmente consumidas por ele em compras de gibis e balas da marca Zequinha. Estas por sinal eram bastante ruins e as jogávamos fora. Queríamos apenas as embalagens com as figuras do famoso palhacinho. Era um verdadeiro desafio completar o álbum porque alguns números eram os mais custosos de encontrar. O Zequinha 10, de tão raro, virou até apelido para se referir às pessoas complicadas, difíceis de lidar.
E éramos também bastante solidários. Quando um reprovava de ano, era prontamente acompanhado pelo outro. Foi assim na terceira série e no exame de admissão ao ginásio. É que não nos entendíamos muito bem com as terríveis frações matemáticas. Acho que a culpa foi dos livros. Eles não eram muito chegados em nós e nem nós neles.
No início foi difícil ser aceito pela família do Adilson. Embora tivéssemos a mesma idade eles tinham sobre ele um exagerado senso de proteção. Até mesmo à Escola sempre ia acompanhado de sua irmã mais velha, chamada Helena. Para eles eu não era bem o tipo amizade que ele precisava. Não sei se devido a cor de minha pele ou talvez por ser visto como um menino de rua. Realmente não sei e nunca quis pensar muito a respeito.
A verdade é que a rua naquela época era realmente o meu segundo lar. A necessidade e a luta na obtenção de meios materiais para a sobrevivência fez-me ali receber precocemente ensinamentos e informações sobre o mundo – e, confesso, muitas pequenas malandragens - que Adilsinho, como ele era chamado em sua casa, ainda não obtivera. Mas com uma gigante capacidade de adaptação acabei sendo aceito por eles. Passado algum tempo esporadicamente já frequentava sua casa, principalmente nas horas do lanche da tarde e nos momentos em que a televisão deles estava ligada. Uma vez, quando estavam com a casa nova para onde iam se mudar em fase final de acabamento, no dia da colocação do telhado veio uma tempestade repentina e foi uma correria danada, até eu ajudei a carregar telhas, para evitar que o imóvel ‘morresse afogado”. Quando acabamos o serviço estava todo molhado e foi lá que tomei meu primeiro banho em um chuveiro quente. Na minha casa não tinha energia elétrica.
No verão daquele ano de tantos acontecimentos especiais, nosso professor de educação física nos levou para visitar o Colégio Estadual, que era “point” na educação, tinha uma enorme piscina e até um enorme abrigo para bombardeiros aéreos (é que fora construído durante os anos da segunda guerra). Nossa visita era exclusivamente para usar a piscina. Levamos shortinho quem tinha e calçãozinho para os menos privilegiados pela sorte. Naquela piscina havia um trampolim mais ou menos baixo no qual formávamos fila para subir e pular dele. Como eu era dos meninos altos, fiquei no final da fila. Adilson e outro amiguinho em comum chamado Gerado, por serem baixinhos foram na frente. Não sei bem como foi aquilo, mas aconteceu. Alguém escorregara no trampolim e caíra de cabeça na borda da piscina. Era o Adilson!
Naquele tempo ainda não existia Samu e nem ambulância de bombeiros. Foi levado ao hospital no carro do professor, mas não resistiu. Sofrera uma fratura fatal no crânio. Após isso passei intermináveis dias em extrema tristeza e acabei adoecendo. Fui diagnosticado com distúrbio afetivo com sintomas físicos e psicológicos. A palavra depressão ainda não estava em voga, mas acho que era isso. Não me levaram no enterro dele porque não estava em condições físicas. Dias depois dona Marta, era este o nome de sua mãe, presenteou-me com todos os gibis e figurinhas que pertenciam a ele (um tesouro de valor inestimável!). Foi uma amizade que marcou muito. Nunca o esqueci. Sei até a data de seu aniversario – quatro de março. É o dia que tem bolo lá em casa, para comemorar com meus meninos, a data natalícia daquele grande amigo.
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